Um brainwriting preliminar em busca de novas sugestões
RESUMO
Nesta reflexão, faço uma tentativa de identificar e explicitar os pilares fundamentais de uma doutrina cristã universal dentro do campo cristão. Não se trata de defender o ecumenismo, mas de encontrar alguns elementos que possam ser válidos numa conversa civilizada entre pessoas que se dizem cristãs e, ao mesmo tempo, racionais. Se assim for, não se deve alimentar dissensões em torno de pontos difíceis, a não ser entre especialistas, e em local reservado. A conclusão desta reflexão é que, no ponto de partida ou no ponto de chegada, só existe um referencial: o Evangelho de Cristo na forma como Ele mesmo o resumiu.
1. INTRODUÇÃO
Para não alimentar nenhum tipo de confusão que possa insinuar-se ao longo deste texto, começo pelo ponto de partida que, ao final, também será a conclusão desta reflexão. A doutrina de Cristo foi sintetizada por Ele mesmo em Marcos 12:30-31:
"Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes."
Esta é a doutrina-raíz. Ela é simples, clara e concisa, mas não é fácil de ser praticada. O caráter do cristão capaz de praticá-la precisa ser formado pela educação cristã, embora o resultado final não possa ser garantido. E isso exige uma espécie de grade curricular, sendo este, conforme acredito, o significado das diversas doutrinas cristãs particulares.
Se o centro de tudo está no amor, como fica a questão genética? O amor é um dom de Deus, entregue na sua forma acabada, ou pode ser aprendido? Falando francamente, minha resposta é: - Não sei. Contudo, a experiência mostra que o homem só ultrapassa o seu nível animal pela educação. Então, acredito ser razoável que o amor também deva fazer parte dessa educação, embora ela não possa garanti-lo. Sob esta perspectiva, todos os desdobramentos da doutrina original de Cristo são uma espécie de grade curricular para ensinar a arte de amar.
Também, não sabemos em que proporção Deus atua diretamente, dentro da pessoa, ou por meio de intermediários. Agostinho lembrou, no seu livro A Doutrina Cristã, que Deus às vezes agiu diretamente, mas parece que Ele quis usar o homem como seu intermediário, como está registrado em muitas passagens bíblicas. Isso ocorreria para o benefício do homem que, assim fazendo, estaria demonstrando dignidade no uso do seu livre-arbítrio para o bem, ao invés de usá-lo para o mal.
Sabemos que a educação é uma necessidade, pois o próprio Cristo submeteu-se a ela, conforme foi dito em Lucas 2:52 "E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens."
Portanto, ao falar na construção de uma doutrina cristã, é preciso sempre explicitar o ponto de partida, mergulhar na luta que leve à sua realização e, ao final, confrontar-se novamente com este ponto de partida e assumir que ele é, também, o ponto de chegada. Se esse princípio não for aceito, não há sobre o que falar.
A construção de qualquer doutrina - que estou considerando como uma grade curricular para a educação - exige um método. Este será descrito a seguir em suas linhas gerais.
2. O MÉTODO
O método de pesquisa, em todas as áreas do conhecimento, tem uma estrutura geral fixa, embora possa ser expresso de muitas maneiras, e com diversos graus de detalhamento. O método de Einstein, por exemplo, está descrito no seu livro Notas Autobiográficas e no livro A Imaginação Científica, de Gerald Holton.
Einstein acreditava que cientista não é quem usa o método científico, mas quem tem a vocação de cientista. Apesar disso, afirmou que o domínio do método é mais importante do que usar o cérebro como depósito de informação. Esse método será descrito a seguir, em suas linhas gerais, com a devida atenção à sua adaptação para a pesquisa e elaboração de doutrinas e, em especial, as doutrinas cristãs.
Na sua versão mais avançada, o método científico pressupõe que se parta da certeza de que existe algo que não se vê, mas cujos indícios podem ser intuídos, ou percebidos por meios indiretos. Assume-se que é possível conhecer o que se busca e, em proporção à fé, busca-se com menor ou maior intensidade. A fé, por sua vez, é definida pelo Apóstolo Paulo em Hebreus 11:1 da seguinte maneira: "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem."
No caso de Einstein, ele afirmou que, após intensa busca e, geralmente, em momentos não relacionados com essa busca, a verdade manifesta-se como axioma que traz certeza absoluta ao pesquisador. Entretanto, é necessário extrair as consequências lógicas desse axioma e testá-las por meio de experimentos apropriados. Foi por esse método que ele alega ter chegado à conclusão de que matéria e energia se equivalem segundo certa relação matemática. E isso foi amplamente comprovado na teoria e na prática.
Entretanto, é necessário adaptar o método científico à pesquisa em teologia. Tomás de Aquino, ao usá-lo muito antes de Einstein, partiu da aceitação da Revelação, sem a qual não seria possível conhecer Deus apropriadamente. No caso, ele assumiu que, para o crente, e apenas para o crente, seria possível ascender das coisas criadas e, por analogia, chegar a algum conhecimento do Criador. Isso seria útil para ajustar fé e razão e, assim, fortalecer a certeza já dada pela Revelação. Aquino buscava em todas as fontes que tinham credibilidade, pesava prós e contras, e decidia usando sua razão, mas sempre em conformidade com as verdades já firmadas pela Igreja.
O método, aplicado à elaboração de doutrinas, visa à interpretação e organização das informções existentes. As informações para se elaborar uma doutrina cristã devem ser buscadas, em primeiro lugar, na Bíblia, mas é necessário, ainda, consultar: os praticantes, os sistematizadores e os analistas, cujo significado será explicado mais à frente.
Parte-se de uma busca panorâmica, identificam-se os elementos essenciais a serem pesquisados e, em seguida, fazem-se análises desses elementos. Havendo mais de uma abordagem respeitável sobre o mesmo tema, comparam-se as abordagens e cria-se uma nova versão, que se supõe ser verdadeira.
Contudo, a avaliação final de qualquer doutrina, assim como de uma teoria científica, passa pelo crivo lógico, pela derivação de suas consequências, se verdadeiras, e pela confirmação dessas consequências na prática. Quanto aos que se dizem adeptos da doutrina de Cristo, por exemplo, o critério de avaliação foi dado pelo próprio Cristo:"Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Mateus 7:20"
Ao buscar informações na Bíblia, é preciso levar em consideração que algumas passagens parecem ser obscuras, ou estar em contradição com outras. Isso pode dar margens a erros, na melhor das hipóteses, ou falsificações, na hipótese de ela estar sendo usada com má fé. Os especialistas formuladores de doutrinas, como ocorreu com Agostinho, Lutero e Calvino, precisam estudar hermenêutica e exegese, além de vários outros temas filosóficos e científicos. Mesmo assim, as eventuais doutrinas criadas não têm valor algum se não puderem ser confrontadas com a prática para referendá-las.
Tomados todos os cuidados pertinentes, ainda é preciso levar em consideração que uma eventual doutrina cristã assim elaborada não pode passar de mero desdobramento da doutrina-raíz que nos foi dada por Cristo. Pode ser que uma versão elaborada com todos os cuidados, alguns dos quais foram aqui citados, seja mais compreensível do que as demais existentes, inclusive destacando aspectos anteriormente esquecidos.
A consolidação de um currículo para a educação cristã, ou doutrina cristã, necessita que se façam consultas, além da Bíblia, a outras fontes de pesquisa completamentares. Quanto a isso, ressalte-se a recomendação do Apóstolo Paulo em 1 Tessalonicenses 5:21: Examinai tudo. Retende o bem.
Há ainda que se destacar, no caso da educação quanto a uma doutrina, que a aprendizagem primeiro se dá pelo exemplo. O educando, num primeiro momento, presta atenção e absorve as lições sem questioná-las, principalmente nos seus primeiros anos de vida. Com o tempo, pode rejeitar a mensagem e iniciar buscas próprias, ou pode simplesmente ajustar a mensagem recebida à realidade, de acordo com as suas condições de existência.
No caso da educação cristã, o aprendiz, ao atingir certo nível de sabedoria, torna-se praticante autônomo. Ele deve, então, julgar cada caso particular a que é submetido segundo o princípio geral fixado no seu intelecto e no seu coração pela doutrina. Sendo necessário, ele deverá tomar decisões que, posteriormente, poderá revisar. Assim, ele não mais se torna preso aos detalhes de uma doutrina qualquer, mas à doutrina-raiz que se fixou no seu ser. Em linguagem laica, ele se torna um praticante reflexivo, um verdadeiro pesquisador da verdade na sua vida diária.
A seguir serão dadas explicações sobre o significado das fontes de consulta para a elaboração de doutrinas, aqui chamadas de: praticantes, sistematizadores e analistas.
2.1 - Os Praticantes
No cristianismo, entendo que os praticantes são as pessoas reconhecidas pelo seu comportamento orientado pela doutrina de Cristo, esta centrada no "amor a Deus e ao próximo". É evidente que qualquer julgamento sobre a prática de alguem quanto a essa doutrina é sempre superficial, pois só Deus pode avaliar o que se passa no interior do homem, não importa o quanto o seu discurso e sua prática exterior sejam compatíveis com a doutrina publicamente professada.
A pergunta central, quanto aos praticantes é: existem modelos de cristãos com os quais se possa aprender algo da doutrina de Cristo ao longo dos séculos?
Como o principal documento comum a todos os cristãos é a Bíblia, a menos de alguns livros em que não há consenso entre católicos e protestantes, segue-se que os modelos típicos devem ser buscados nela, em primeiro lugar. Cristo é o cabeça desses modelos. Seus apóstolos são os modelos secundários. Todos os demais personagens são modelos terciários, mas ainda válidos, seja como exemplos do que fazer, seja como exemplos do que não fazer.
Contudo, é preciso que tais modelos sejam encontrados ao longo dos séculos, sob pena de se considerar que a doutrina tenha sido extinta. A Igreja Católica, além dos modelos bíblicos, adota os santos como referência, aos quais dá uma espécie de certificado de garantia de que foram cristãos piedosos e dignos de serem levados em conta como modelos de vida. Os protestantes não recomedam modelos fixos além do próprio Jesus Cristo e dos demais modelos bíblicos. Contudo, eles costumam indicar, sem exclusividade e sem unanimidade, pessoas que consideram gigantes da fé.
2.2 - Os Sistematizadores
Os sistematizadores formulam doutrinas que, por sua vez, podem ou não ser incorporadas pela orgnanização humana chamada igreja. Para sistematizar, eles precisam ser também analistas, mas para que seus sistemas tenham credibilidade, eles precisam ser praticantes respeitáveis. Senão tudo se transformaria em hipocrisia.
Além do próprio Cristo, que deixou uma doutrina devidamente ilustrada com bons exemplos, parece que o único sistematizador de amplo espectro aceito por todos é o Apóstolo Paulo. Contudo, com base em Paulo, e também por outros motivos, tiraram-se conclusões que colocaram protestantes e católicos em oposição, o que dividiu a Igreja de Cristo - a militante - no século XVI.
Depois de Paulo, embora vários outros sistematizadores tenham dado a sua contribuição, o consenso recai, por vários séculos, sobre Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho da Igreja Católica. Ele é considerado uma fonte tanto para o catolicismo como para o protestantismo. Mas, igualmente, é citado para defender certas posições que são antagônicas entre si.
Após Agostinho, um novo sistematizador foi adotado como referencial pela Igreja Católica Romana: Tomás de Aquino. Mas, ele não é bem aceito pelos protestantes, embora estes o estudem como sendo representativo da teologia tipicamente católica. Contudo, Aquino absorveu a doutrina-raíz de Cristo, além dos aspectos essenciais das doutrinas registradas pelo Apóstolo Paulo e por Agostinho de Hipona. A predestinação, por exemplo, da qual Calvino é acusado de ser o principal defensor, tem sua defesa racional em Aquino, embora a Igreja Católica não a tenha adotado na forma como ele a sistematizou.
Entre os protestantes, destacam-se Lutero, que deu origem ao seguimento independente denominado luterano, e Calvino, que deu origem ao calvinismo. Ambos reportam-se a Paulo e a Agostinho; porém, como forma de chegar novamente a Cristo. Contudo, eles não conseguiram estabelecer uma doutrina totalmente compartilhada. Seus adeptos seguiram caminhos próprios, embora tenham preservado certas crenças comuns.
2.3 - Os Analistas
Tanto os praticantes como os sistematizdores podem ser também analistas. Entretanto, destaco os analistas em sentido pleno; eles não precisam ser, necessariamente, praticantes ou sistematizadores. Sua ênfase é colocada na análise da consistência lógica interna de uma doutrina, e confrontam as divervas doutrinas entre si para explicitar suas semelhanças e diferenças. Eventualmente eles infuenciam praticantes e sistematizadores mais intelectualizados, e podem até chegar a fazer propostas de sistematização.
2.3.1 - Os analistas lógicos
Eles analisam, ou deveriam analisar as doutrinas sem pressupostos. Sua intervenção deveria ater-se a encontrar contradições na lógica adotada e apresentá-las de forma clara. Na atualidade eles se comportam como analistas do discurso, e estão atentos para o choque entre a prédica e a prática. Geralmente eles desconfiam de intenções ocultas, estas de natureza ideológica, visando a conquistar, às vezes subliminarmente, corações e mentes para uma visão de mundo. Acredita-se que raramente alguém possa atuar com tamanha isenção, pois, quer explicitem ou não, toda pessoa julga a realidade a partir de uma visão de mundo.
2.3.2 - Os analistas ateus ativistas
Eles partem do principio de que não há Deus. A partir dai tentam demolir todos os argumentos contrários aos seus. É como se eles fossem crentes no ateísmo e, por isso, não têm credibilidade junto aos crentes, nem junto aos analistas que se pretendem cientistas objetivos, aqui chamados de analistas lógicos. Contudo, no que se refere ao levantamento de possíveis contradições nos textos que analisam, eles devem ser levados em consideração, pois dedicam-se com afinco a essa tarefa.
2.3.3 - Os analistas crentes
Eles partem de princípios gerais aceitos por todos os crentes, ou pelos crentes do seu seguimento cristão, e questionam apenas os desdobramentos e argumentos secundários que não vão contra a fé estabelecida. Eles têm a vantagem de, como crentes assumidos, não necessitarem dar explicações aos ateus. Quando se confrontam com eles, procuram fazê-lo apenas no nível da lógica, e não da afirmação da própria crença pela persuasão.
2.3.4 - Os analistas "crentes agnósticos"
Eles se dizem crentes, mas têm dúvidas. Por isso propõem-se a fazer análises usando o método científico pretensamente neutro. Neste caso, eles podem chocar-se contra verdades aceitas, e questioná-las. Mesmo quando se mantêm fieis a certas crenças comuns, costumam ser rejeitados pelos crentes que se dizem ortodoxos.
3. ALGUNS ELEMENTOS COMUNS A TODAS AS DOUTRINAS VÁLIDAS
Levando em consideração o método anteriormente explicado, fiz leituras críticas que me levaram a identificar os pilares fundamentais das doutrinas cristãs, na forma como os julguei úteis à educação.
Tomei como referências: Jesus Cristo, o Apóstolo Paulo, Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Lutero e Calvino. A partir das minhas leituras, conclui que os resultados a que cheguei poderiam ser aceitos por todos eles, e que os pilares encontrados estão presentes, de forma explícita ou implícita, nos documentos católicos e protestantes.
Contudo, faço este exercício apenas como um reflexão, e recomendo que, à medida do possível, o leigo que deseja usar sua razão, faça suas próprias reflexões e tire suas próprias conclusões.
3.1 - Deus
Deus é aceito por todo o campo cristão como sendo triuno. Todos O consideram como a fonte invisível de toda realidade visível, e praticamente não há discordâncias sobre Ele, exceto quanto à aparente contradição entre Sua onipotência e o livre-arbítrio humano. O Deus Filho, encarnado como Jesus Cristo, fez a conexão entre o homem e Deus, mostrando o caminho da salvação para além deste mundo.
Nesta reflexão, Deus não foi objeto de especulação. Assumi que, quanto a tudo que não esteja ao alcance da razão humana - pelo menos da minha razão - a Seu respeito, deve-se calar. Insistir em debater, para público não especializado, o que foi considerado incompreensível pelos grandes filósos cristãos, é inútil e perigoso, pois pode deseducar e gerar dúvidas.
3.2 - O Amor
O amor deve referir-se a Deus e ao próximo. Sua prática pressupõe fé, e gera esperança. A expressão sintética mais autoritativa a esse respeito foi feita por Jesus na síntese que Ele fez da Lei e dos Profetas. Ela é reforçada maravilhosamente pelo Apóstolo Paulo em 1 Coríntios 13.
Entretanto, o amor - a Deus e ao próximo - só se concretiza na vida prática. Esta, por sua vez, demanda educação. Daí que as doutrinas particulares devam apresentar-se como uma espécie de grade curricular de educação para a vida, conforme veremos.
Certas questões difíceis não precisam ser abordadas nesta reflexão, pois tornam-se irrelevantes para o praticante. Por exemplo, a questão do conflito entre fé e obras. A fé, em sentido pleno, gera as obras da fé. Por outro lado, obras, feitas como tais, não salvam. Entretanto, o mundo precisa de obras, sejam elas obras de salvação, ou obras realizadas para o bem estar neste mundo.
Igualmente, não é relevante, para esta reflexão, a questão da eleição e da predestinação. Se alguém é eleito e predestinado, ele precisa de educação. Como não se pode saber, antecipamente, nada a esse respeito, há que se submeter todos à melhor educação possível, de acordo com a capacidade que cada um demonstra. Feito o melhor possível, de acordo com a melhor tecnologia educacional existente, os resultados devem ser deixados para que Deus os conduza.
Temas como a quantidade e qualidade dos sacramentos, entre outros, também não são relevantes para esta reflexão. Cada doutrina se mantém de pé ou cai na proporção em que use sua liberdade de consciência para escolher o que é certo ou errado quanto ao que vai além daquilo que foi recomendado diretamente por Jesus Cristo. Ninguém é obrigado a concordar com esses aspectos particulares, nem pode impor aos demais seguimentos sua forma de interpretá-los, pois a liberdade de consciência, enquanto for da vontade de Deus, é uma conquista definitiva das sociedades abertas.
Assim, na vida prática, serão focados, nesta reflexão, apenas elementos comuns passíveis de aceitação por todos os seguimentos cristãos e, eventualmente, pela educação laica. Pelo menos essa é a intenção.
3.3 - A Vida Prática
Deus, para o educando, deve ser apresentado como a fonte do amor, inclusive aquele que lhe é dedicado. O amor não apenas deve ser aplicado ao aprendiz, como também deve orientar a prática do relacionamento dos seus pais, familiares e, se possível, professores em geral. O recém-nascido, como o peixe, deve nascer mergulhado na vida cristã prática.
Sob a perspectiva laica, o amor deve, no mínimo, ser substituído por respeito e solidariedade. Isso implica que a educação laica fornecida pelo Estado deve ser cobrada como a melhor síntese do avanço da civilização. A educação cristã não pode estar aquém dessa educação laica universal, embora deva superá-la em muito. E isso é muito difícil, embora não seja impossível.
Na vida prática, os rituais têm um importante papel para fixar o caráter por meio de hábitos, valores e disposições para a ação. Estes, por sua vez, devem se fixados em ambientes que combinem emoção sadia com o desenvolvimeto de um senso crítico que permita separar a verdade da falsidade e do erro. O medo deve ser evitado, pois ele pode gerar o fariseu covarde. Enfim, a fé, o amor e a esperança, devem conduzir a vida.
Os principais elementos para um currículo de educação cristã, conforme consegui distingui-los, ainda que provisoriamente, serão destacados a seguir.
3.3.1 - Formação da Identidade
A identidade do cristão, embora possa ser expressa de várias maneiras, já está bem definida a priori. Ela compreende sua missão, sua visão de futuro e seus valores.
Missão
Amar a Deus e ao próximo. Isso implica servir.
Visão de Futuro
União com Deus. Isso implica buscar essa união desde já, mas sabendo que ela se concretizará apenas na outra vida.
Valores
Podem ser expressos de muitas maneiras, mas algumas palavras são importantes para fixá-los; por exemplo: justiça, bondade e humildade.
Essa identidade poderá ser fixada paulatinamente por meio de diálogos, leituras e apresentação de casos na forma de histórias agradáveis, além de jogos que simulem situações cuja identidade é posta à prova.
3.3.2 - Fixação dos Bons Hábitos
Cada novo ser humano chega ao mundo e herda a cultura estabelecida. Para que ele não tenha que viver toda a história da Humanidade, os hábitos filtrados por sua comunidade lhe são transmitidos. No caso do cristianismo, esses hábitos são aqueles julgados como válidos e necessários para vivenciá-lo.
Os principais hábitos a serem fixados na infância poderiam ser, entre outros: orar o Pai Nosso, agradecer a Deus pelas refeições, dizer muito obrigado e por favor, visitar os doentes nos hospitais, ajudar a quem precisa. Logicamente, os hábitos devem ser escolhidos para dar suporte á vida como um todo, e não apenas quanto ao comportamento estritamente cristão. O núcleo sadio da educação laica é plenamente compatível com a educação cristã, como é o caso dos pilares propostos pela UNESCO: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a aprender.
Tendo em vista a questão da sustentabilidade, por exemplo, é preciso que se criem hábitos relativos ao bom uso dos recursos disponíveis, visando a garantir uma vida de qualidade para as gerações futuras. Contudo, os hábitos que garantem uma vida coletiva satisfatória, em sentido laico, não têm relação com a salvação da alma.
3.3.3 - Desenvolvimento do Senso Crítico
Hábitos são herdados, mas nem sempre há garantia de que sejam os mais apropriados. Pode ser que não houvesse conhecimento suficente quando eles foram fixados. Então, o mais importante é o desenvolvimento de um senso critico capaz de avaliá-los, assim como se deve avaliar cada situação particular da vida. Em verdade, trata-se de consolidar o bom senso, a partir do domínio da dinâmica do conhecimento humano.
O senso de divindade, o senso mais importante para o cristão, faz parte de sua estrutura íntima, devendo ser apenas ativado, inicialmente a partir do hábito de participar das atividades da religião racionalmente administrada. O robustecimento desse senso depende de estudo, reflexão, e prática, tanto individual como coletivamente.
3.3.4 - Filiação a uma Denominção Séria
O processo educativo, para ser transmitido de geração em geração, exige uma instituição para tal. Assim, as denominações cristãs justificam-se como guardiãs da doutrina de Cristo, esta desdobrada na grade curricular típica da denominação considerada. Essa grade curricular, ou doutrina, por sua vez, deve ser submetida ao senso crítico de vez em quando, pois ela pode fixar elementos humanos nascidos do orgulho e da ignorância dos seus formuladores.
A perspectiva crítica aqui defendida esteve no cerne da Reforma Protestante do século XVI. Ela consolidou-se, principalmente, no presbiterianismo, cujas características serão sumariamente apresentadas a seguir, conforme pude compreendê-las.
4. PRESBITERIANISMO: Um Caso Particular de Expressão do Evangelho de Cristo
4.1 - O Presbiterianismo
O presbiterianismo equivale à forma como John Knox intrepretou a Reforma Protestante do Século XVI, e a implementou na Escócia. O contexto era de confronto com a Igreja Católica Apostólica Romana. Sua principal característica é a democracia representativa, por meio de administração colegiada de toda a comunidade, como é feito hoje nas melhores Universidades Federais brasileiras.
John Knox foi obrigado a aceitar a luta, discursiva e física, visando à liberdade de culto a Deus segundo sua compreensão do que fosse a doutrina de Cristo na sua forma mais pura, esta interpretada, à época, por João Calvino. Knox venceu a luta. A partir da Escócia, e de outros países europeus, o presbiterianismo migrou para os Estados Unidos e, de lá, para o Brasil. Meu contato com ele deu-se por nascimento numa comunidade ligada à IPB - Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual destaco os seguintes aspectos essenciais.
4.1.1 - A doutrina da IPB tem como ponto de partida o Evangelho de Cristo conforme apresentado pelo próprio Jesus Cristo em Mateus, Marcos, Lucas e João. Este Evangelho, por sua vez, está anunciado na Bíblia, de Gênesis a Apocalipse.
4.1.2 - A Bíblia é o documento máximo de onde são retirados todos os demais documentos, inclusive a Confissão de Fé de Westminster, assumida como sendo a melhor exposição da sua doutrina.
4.1.3 - A IPB considera que todo documento redigido por homens, ainda que eles usem a Bíblia como fonte, estão sujeitos a falhas humanas. Com isso, abre-se a possibilidade de que todos eles sejam analisados criticamente, sempre tendo como referência a própria Bíblia.
4.1.4 - A IPB adota alguns pontos de vista que, apesar de serem bíblicos, ou dela derivados pela análise lógica, não são compartilhados por outros seguimentos cristãos. Um exemplo típico é o batismo por aspersão, este compartilhado com a Igreja Católica Romana, porém rejeitado pela maioria dos demais seguimentos. Entretanto, a IPB julga que esses pontos de conflito não fazem parte do núcleo pétreo da doutrina de Cristo.
4.2 - Conclusão sobre a Doutrina Presbiteriana
Conforme pude compreender, a doutrina presbiteriana tem no seu núcleo pétreo a própria doutrina de Cristo. Ela reconhece que a forma particular com que expressa essa doutrina, para efeito de educação, pode ser continuamente analisada e melhorada. Ela está consciente de que a prática diária deve ser conduzida segundo os aspectos firmemente estabelecidos, não aceitando sua livre mudança por líderes de comunidades. Toda eventual mudança deve ser pensada e analisada com base no pensamento racional das pessoas que foram devidamente preparadas para enfrentar esse desafio, isso de forma institucional. A IPB não faz diferenciação entre doutos e indoutos, sob a perspectiva humana, mas entre piedosos e não piedosos, segundo a prescrição do Evangelho de Cristo na sua forma mais pura.
5. CONCLUSÃO GERAL
Conforme foi dito já na introdução desta reflexão, a mais autorizada versão da doutrina de Cristo foi dada por Ele mesmo. Ela não é uma questão teórica, mas, essencialmente, prática. Contudo, cada seguimento cristão vê-se na necessidade de formular sua grade curricular, ou doutrina, para educar os seus membros. Nesse processo podem perder-se em discussões de aspectos secundários e, assim, descuidarem da prática da doutrina-raiz.
Quanto a Deus, só se chega a Ele pelo amor, este proveniente da fé. O amor é o elemento central, no qual tudo se dilui, inclusive a fé. Fé e amor geram esperança. Esta deve ser alimentada na vida prática por meio de mecanismos de apoio, entre os quais os diversos ingredientes da sã doutrina, como os sacramentos corretos. Porém, os diversos seguimentos cristãos não são unânimes em todos os detalhes de suas doutrinas, embora compartilhem do núcleo central da doutrina de Cristo.
Embora lamentável, essa divisão é inevitável enquanto não houver amadurecimento no amor e no uso da razão. O Apostolo Paulo enxergou isso em sua época e, embora defendesse a unidade em torno do núcleo pétreo, capaz de unir todos os cristãos, suportou a idéia de que os partidos - no caso denominações -, se se comportarem dentro de certos limites, devem ser tolerados. Paulo chegou a fazer referência aos fracos na fé, os quais, na sua opinião, não deveriam ser desafiados, nem constrangidos.
Assim, o núcleo pétreo do Evangelho de Cristo é sempre e eternamente o mesmo.
Defendo que é necessário ter em mente esse ponto de partida unificador, evitar a discussão pública dos aspectos que trazem divergências, promover discussões entre especialistas para se chegar ao consenso e, sobretudo, enfatizar a prática daqueles aspectos que, embora óbvios, são esquecidos exatamente pelo fato de serem óbvios.
O óbvio que precisa ser posto em prática foi apresentado por Ele em Marcos 12:30-31:
"Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes."
Esta reflexão chega ao final, conforme prometido desde o início, enfatizando o seu ponto de partida. O Evangelho de Cristo, resumido por ele mesmo, deve orientar qualquer diálogo bem intencionado. Ele deveria ser suficiente, quando citado, para calar quaisquer dissensões e envolver a todos, imediatamente, na sua prática.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
O evangelho dos lobos e charlatães
Uns, pois, clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento era confuso; e os mais deles não sabiam por que causa se tinham ajuntado. Atos 19:32
Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. Isaías 1:13
Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Mateus 7:15
Deus não é fonte de confusão, mas alguns dos seus supostos representantes na Terra O desmoralizam a esse respeito. E isso pode dar-se por ignorância ou por má fé. Resumindo numa só algumas das mensagens que já ouvi de vários pregadores, de vários seguimentos cristãos, o resultado seria mais ou menos o caos que vem a seguir. Avaliei o campo cristão, não uma denominação em particular. Ajustei os discursos com minhas próprias palavras, portanto, eles passam a representar apenas uma ficção, cuja equivalência com a realidade poderá ser avaliada apenas de acordo com a experiência de cada leitor. Seguem alguns discursos típicos.
Discurso 1: "Você, meu irmão, não pode fazer nada pela sua salvação, pois ela tem seu início e finalização exclusivamente em Deus. Porém, esse processo tem alguns passos muito bem definidos, sendo que o último deles consiste no arrependimento. Contudo, quanto a isso fica uma pequena dúvida. Há quem diga que o arrependimento é precedido pela regeneração, esta vindo antes da fé. Há quem diga que a fé vem em primeiro lugar. Estou pensando em fazer um doutorado para esclarecer a dúvida. Quando eu a tiver esclarecido, voltarei ao tema, talvez daqui a uns quatro ou cinco anos. Mas, de uma coisa eu sei, e nem preciso estudar mais para afirmar: não há nada que você possa fazer pela sua salvação. Tudo já está decidido; mas, você é completamente responsável pelo que já está decidido."
Discurso 2: "Ah, meu querido irmão. Você precisa adquirir fé, pois sem fé ninguém pode ser salvo. Entretanto, saiba que a fé é dom de Deus. Se Ele não lha deu, é porque você não a merece. Meu irmão, quando Deus elege uma ovelha para o Céu, ela irá para lá, tenha ela fé ou não, faça obras ou não. Contudo, a fé vem pelo ouvir. Então, se você não ouvir, já está condenado. Mas você não pode ouvir a mensagem em qualquer lugar. Escolha alguma igreja que seja genuinamente cristã, desde que não sejam tais e tais. Por outro lado, mesmo aquelas que eu gostaria de lhe indicar já estão irremediavelmente contaminadas pelo inimigo, pois elas não reconhecem esta igreja na qual sirvo como Ministro de Deus, como sendo cristã. Satanás tomou posse de tudo, meu irmão!"
Discurso 3: "Meu irmão, Deus odeia pecadores, e exige que você seja tão perfeito quanto Ele. Mas, obviamente, isso não é possível, pois Ele é perfeito ao infinito, enquanto você é finito e, por definição, infinitamente imperfeito em relação a Ele. Arrepanda-se pois, meu irmão, e faça as obras da fé. Mas saiba que a salvação só depende da Graça, e esta, como você sabe, não é de graça, pois depende que você invista em si mesmo e desenvolva sua salvação diariamente, embora nenhuma obra que você faça seja contabilizada a seu favor. Trabalhe duro, meu irmão, mas não espere retorno, nem mesmo a esperança de ir para o Céu por causa do seu esforço."
Discurso 4: "Meu irmão, faça os sacrifícios que eu lhe estou prescrevendo. Deus, certamente, o aceitará. Ele não pode negar a si mesmo, portanto, não pode deixar de atender os sacrifícios que Ele mesmo instituiu, neste caso, por meu intermédio. Venda tudo que tem, dê-me todo o dinheiro apurado e siga-me. Eu investirei o seu sacrifício no crescimento do Reino de Deus, e Deus, que tudo vê, lhe dará a recompensa. Mas, se por acaso, depois de muito persistir, não receber o que pediu, isso é sinal de que você não tem fé. Então, pode deixar a minha igreja, pois ela só aceita pessoas de fé. Não estamos aqui para perder tempo."
Discurso 5: "Meu irmão, você nem precisa ter fé, como disseram aqueles lobos vorazes daquele ministério que você sabe qual é. Eu tenho fé suficiente por você, e montei uma equipe que tem fé para todo mundo. Venha e veja quantos milagres Deus tem feito por meu intermédio, poder que foi retransmitido aos meus auxiliares que estão nas minhas franquias, as quais pretendo espalhar por todo o mundo, se Deus quiser, é claro. Sua salvação neste ministério que Deus me deu é segura. Mas você precisa demonstrar a sua confiança repassando-me uns ridículos 30% dos seus rendimentos deste mês. Só isso. Os 70% restantes podem ficar com você, apesar de tudo ser de Deus. Veja como sou razoável! Veja os milagres que estão acontecendo por aqui e tenha certeza de que o seu investimento é seguro. Minha fé, que eu coloco gratuitamente à sua disposição, é uma fé de resultados."
Discurso 6: "Meu irmão, Deus não é um ser confuso. Se você não entendeu esta claríssima mensagem que o Espírito Santo me enviou, procure-me para esclarecimentos. Pode ser que Ele tenha endurecido o seu coração para evitar que você, compreendendo e aceitando a mensagem, seja salvo. No seu caso, pode ser que Ele o tenha reservado amorosamente para o inferno. Porém, pode ser que tudo seja o contrário do que eu disse. Que Deus o ilumine, pois se você não é capaz de entender esta claríssima mensagem, você está nas trevas. Lembre-se: - Não basta ter fé; é preciso raciocinar. Mas se o seu raciocínio levá-lo a desconfiar de mim, eu não estou nem ai, meu irmão. O problema é seu."
Eu poderia acrescentar vários outros discursos de charlatães e lobos. Mas prefiro que você mesmo fique atento para captar essas tolices.
Diante dessa confusão, a ovelha que não usa o seu senso crítico pode até sentir-se feliz, pois não percebe o que está acontecendo. Se o ambiente é neurolinguisticamente programado, o sistema nervoso da ovelha armazena somente o que interessa: sons agradáveis, músicas, cenários, gestos, promessas e os muitos "milagres" que pensa ter presenciado. Entretanto, se a ovelha analisa criticamente as várias mensagens que estão no ar, além daquelas que recebe do seu próprio seguimento, ela sente como se a sua razão tivesse que engolir um círculo quadrado sob a alegação de que isso é perfeitamente compatível com a teo-lógica, ou lógica divina.
Cheguei a sonhar com uma ovelha que, após ter sido sacrificada, teve o seu cérebro extraído para uma autopsia. Ele estava completamente deteriorado, cheio de ratos e outras coisas estranhas. Consultei algumas dessas ovelhas mais inteligentes, e pude perceber que é exatamente assim que elas se sentiam. Caso não encontre um ambiente cristão sério, onde possa repousar, uma ovelha pode encontrar a ilusão do paraíso na religião antropocêntrica, mas poderá encontrar o inferno naquela que, dirigida por um charlatão, insiste em dizer que é completamente teocêntrica.
Qual será o futuro espiritual desses lobos, doutores-charlatães e charlatães indoutos que usurpam o nome Cristo para usar em benefício próprio?
As muitas doutrinas contraditórias anulam o Evangelho de Cristo tornando-o motivo de riso para o inimigo. Entretanto, como sabemos, Cristo é manso e suave, e, sendo o Caminho, a Verdade e a Vida, não pode ser apresentado de maneira tão confusa. Ele é Amor e Razão, e mesmo que não possa ser compreendido totalmente, pode ser aceito por fé esclarecida, esta gerando os frutos do amor. Conheci pessoas que viviam verdadeiramente segundo o Evangelho, e elas eram felizes, apesar de estarem submetidas aos mesmos sofrimentos das demais pessoas.
Todos os usurpadores dizem que suas doutrinas são bíblicas. E se assim for, eles deveriam ser proibidos de interpretar a Bíblia. A sua livre interpretação, conforme tem ocorrido, deve ser considerada crime contra Deus e contra a Humanidade - falo com indignação, mas sou favorável à liberdade de consciência -. Séculos de confusão têm decorrido desde que diversos seguimentos ditos cristãos ultrapassaram a mensagem direta e simples trazida pelo próprio Cristo, e passaram a defender o direito de criar suas doutrinas indo muito além do que Ele anunciou. Eles alegam ter a chave hermenêutica, mas dizem que a chave dos seus concorrentes é falsa.
Apesar de ser um leigo, suponho que é preciso voltar ao Evangelho na sua raiz, que, conforme o próprio Cristo afirmou, consiste em "amar a Deus acima de tudo, e ao próximo como a si mesmo". Esse Evangelho traz esperança e está isento de confusão. Ele é apropriado à compreensão do indouto, mas, para os charlatães - doutos ou indoutos -, e para os lobos vorazes, ele é considerado insuficiente por ser simples demais. Eles fazem questão de tornar tudo mais complicado e inacessível para se firmarem como intermediários entre Deus e o homem. Afinal, eles vivem disso.
Que Deus nos livre dessa confusão, e que nos ilumine para que não pereçamos nas trevas da ignorância e da esperteza. Alguns entre os que julgam ter a chave do conhecimento que leva ao Céu, não entram, nem deixam que outros entrem. Já os lobos vorazes constroem suas armadilhas próximas à porta do Céu, e se extasiam com as filas enormes de ovelhas que se propõem a cair nelas.
Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. Isaías 1:13
Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Mateus 7:15
Deus não é fonte de confusão, mas alguns dos seus supostos representantes na Terra O desmoralizam a esse respeito. E isso pode dar-se por ignorância ou por má fé. Resumindo numa só algumas das mensagens que já ouvi de vários pregadores, de vários seguimentos cristãos, o resultado seria mais ou menos o caos que vem a seguir. Avaliei o campo cristão, não uma denominação em particular. Ajustei os discursos com minhas próprias palavras, portanto, eles passam a representar apenas uma ficção, cuja equivalência com a realidade poderá ser avaliada apenas de acordo com a experiência de cada leitor. Seguem alguns discursos típicos.
Discurso 1: "Você, meu irmão, não pode fazer nada pela sua salvação, pois ela tem seu início e finalização exclusivamente em Deus. Porém, esse processo tem alguns passos muito bem definidos, sendo que o último deles consiste no arrependimento. Contudo, quanto a isso fica uma pequena dúvida. Há quem diga que o arrependimento é precedido pela regeneração, esta vindo antes da fé. Há quem diga que a fé vem em primeiro lugar. Estou pensando em fazer um doutorado para esclarecer a dúvida. Quando eu a tiver esclarecido, voltarei ao tema, talvez daqui a uns quatro ou cinco anos. Mas, de uma coisa eu sei, e nem preciso estudar mais para afirmar: não há nada que você possa fazer pela sua salvação. Tudo já está decidido; mas, você é completamente responsável pelo que já está decidido."
Discurso 2: "Ah, meu querido irmão. Você precisa adquirir fé, pois sem fé ninguém pode ser salvo. Entretanto, saiba que a fé é dom de Deus. Se Ele não lha deu, é porque você não a merece. Meu irmão, quando Deus elege uma ovelha para o Céu, ela irá para lá, tenha ela fé ou não, faça obras ou não. Contudo, a fé vem pelo ouvir. Então, se você não ouvir, já está condenado. Mas você não pode ouvir a mensagem em qualquer lugar. Escolha alguma igreja que seja genuinamente cristã, desde que não sejam tais e tais. Por outro lado, mesmo aquelas que eu gostaria de lhe indicar já estão irremediavelmente contaminadas pelo inimigo, pois elas não reconhecem esta igreja na qual sirvo como Ministro de Deus, como sendo cristã. Satanás tomou posse de tudo, meu irmão!"
Discurso 3: "Meu irmão, Deus odeia pecadores, e exige que você seja tão perfeito quanto Ele. Mas, obviamente, isso não é possível, pois Ele é perfeito ao infinito, enquanto você é finito e, por definição, infinitamente imperfeito em relação a Ele. Arrepanda-se pois, meu irmão, e faça as obras da fé. Mas saiba que a salvação só depende da Graça, e esta, como você sabe, não é de graça, pois depende que você invista em si mesmo e desenvolva sua salvação diariamente, embora nenhuma obra que você faça seja contabilizada a seu favor. Trabalhe duro, meu irmão, mas não espere retorno, nem mesmo a esperança de ir para o Céu por causa do seu esforço."
Discurso 4: "Meu irmão, faça os sacrifícios que eu lhe estou prescrevendo. Deus, certamente, o aceitará. Ele não pode negar a si mesmo, portanto, não pode deixar de atender os sacrifícios que Ele mesmo instituiu, neste caso, por meu intermédio. Venda tudo que tem, dê-me todo o dinheiro apurado e siga-me. Eu investirei o seu sacrifício no crescimento do Reino de Deus, e Deus, que tudo vê, lhe dará a recompensa. Mas, se por acaso, depois de muito persistir, não receber o que pediu, isso é sinal de que você não tem fé. Então, pode deixar a minha igreja, pois ela só aceita pessoas de fé. Não estamos aqui para perder tempo."
Discurso 5: "Meu irmão, você nem precisa ter fé, como disseram aqueles lobos vorazes daquele ministério que você sabe qual é. Eu tenho fé suficiente por você, e montei uma equipe que tem fé para todo mundo. Venha e veja quantos milagres Deus tem feito por meu intermédio, poder que foi retransmitido aos meus auxiliares que estão nas minhas franquias, as quais pretendo espalhar por todo o mundo, se Deus quiser, é claro. Sua salvação neste ministério que Deus me deu é segura. Mas você precisa demonstrar a sua confiança repassando-me uns ridículos 30% dos seus rendimentos deste mês. Só isso. Os 70% restantes podem ficar com você, apesar de tudo ser de Deus. Veja como sou razoável! Veja os milagres que estão acontecendo por aqui e tenha certeza de que o seu investimento é seguro. Minha fé, que eu coloco gratuitamente à sua disposição, é uma fé de resultados."
Discurso 6: "Meu irmão, Deus não é um ser confuso. Se você não entendeu esta claríssima mensagem que o Espírito Santo me enviou, procure-me para esclarecimentos. Pode ser que Ele tenha endurecido o seu coração para evitar que você, compreendendo e aceitando a mensagem, seja salvo. No seu caso, pode ser que Ele o tenha reservado amorosamente para o inferno. Porém, pode ser que tudo seja o contrário do que eu disse. Que Deus o ilumine, pois se você não é capaz de entender esta claríssima mensagem, você está nas trevas. Lembre-se: - Não basta ter fé; é preciso raciocinar. Mas se o seu raciocínio levá-lo a desconfiar de mim, eu não estou nem ai, meu irmão. O problema é seu."
Eu poderia acrescentar vários outros discursos de charlatães e lobos. Mas prefiro que você mesmo fique atento para captar essas tolices.
Diante dessa confusão, a ovelha que não usa o seu senso crítico pode até sentir-se feliz, pois não percebe o que está acontecendo. Se o ambiente é neurolinguisticamente programado, o sistema nervoso da ovelha armazena somente o que interessa: sons agradáveis, músicas, cenários, gestos, promessas e os muitos "milagres" que pensa ter presenciado. Entretanto, se a ovelha analisa criticamente as várias mensagens que estão no ar, além daquelas que recebe do seu próprio seguimento, ela sente como se a sua razão tivesse que engolir um círculo quadrado sob a alegação de que isso é perfeitamente compatível com a teo-lógica, ou lógica divina.
Cheguei a sonhar com uma ovelha que, após ter sido sacrificada, teve o seu cérebro extraído para uma autopsia. Ele estava completamente deteriorado, cheio de ratos e outras coisas estranhas. Consultei algumas dessas ovelhas mais inteligentes, e pude perceber que é exatamente assim que elas se sentiam. Caso não encontre um ambiente cristão sério, onde possa repousar, uma ovelha pode encontrar a ilusão do paraíso na religião antropocêntrica, mas poderá encontrar o inferno naquela que, dirigida por um charlatão, insiste em dizer que é completamente teocêntrica.
Qual será o futuro espiritual desses lobos, doutores-charlatães e charlatães indoutos que usurpam o nome Cristo para usar em benefício próprio?
As muitas doutrinas contraditórias anulam o Evangelho de Cristo tornando-o motivo de riso para o inimigo. Entretanto, como sabemos, Cristo é manso e suave, e, sendo o Caminho, a Verdade e a Vida, não pode ser apresentado de maneira tão confusa. Ele é Amor e Razão, e mesmo que não possa ser compreendido totalmente, pode ser aceito por fé esclarecida, esta gerando os frutos do amor. Conheci pessoas que viviam verdadeiramente segundo o Evangelho, e elas eram felizes, apesar de estarem submetidas aos mesmos sofrimentos das demais pessoas.
Todos os usurpadores dizem que suas doutrinas são bíblicas. E se assim for, eles deveriam ser proibidos de interpretar a Bíblia. A sua livre interpretação, conforme tem ocorrido, deve ser considerada crime contra Deus e contra a Humanidade - falo com indignação, mas sou favorável à liberdade de consciência -. Séculos de confusão têm decorrido desde que diversos seguimentos ditos cristãos ultrapassaram a mensagem direta e simples trazida pelo próprio Cristo, e passaram a defender o direito de criar suas doutrinas indo muito além do que Ele anunciou. Eles alegam ter a chave hermenêutica, mas dizem que a chave dos seus concorrentes é falsa.
Apesar de ser um leigo, suponho que é preciso voltar ao Evangelho na sua raiz, que, conforme o próprio Cristo afirmou, consiste em "amar a Deus acima de tudo, e ao próximo como a si mesmo". Esse Evangelho traz esperança e está isento de confusão. Ele é apropriado à compreensão do indouto, mas, para os charlatães - doutos ou indoutos -, e para os lobos vorazes, ele é considerado insuficiente por ser simples demais. Eles fazem questão de tornar tudo mais complicado e inacessível para se firmarem como intermediários entre Deus e o homem. Afinal, eles vivem disso.
Que Deus nos livre dessa confusão, e que nos ilumine para que não pereçamos nas trevas da ignorância e da esperteza. Alguns entre os que julgam ter a chave do conhecimento que leva ao Céu, não entram, nem deixam que outros entrem. Já os lobos vorazes constroem suas armadilhas próximas à porta do Céu, e se extasiam com as filas enormes de ovelhas que se propõem a cair nelas.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
A neurolinguística e o Evangellho de Cristo
Falo como observador
RESUMO
Nesta reflexão defendo que a excelência em comunicação, esta representada pelo uso consciente ou não da neurolinguística, pode tanto ajudar quanto atrapalhar a disseminação do Evangelho de Cristo. Tudo depende da intenção. Quando há exageros, é fácil detectar eventuais jogos de cena. Contudo, se se aproveitam dons naturais, ou se a encenação é feita profissionalmente, só Deus pode livrar as ovelhas de eventuais ciladas.
1. INTRODUÇÃO
Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho da Igreja Católica, foi, primeiramente, professor de retórica. Ele conhecia a importância da eloquência. Quando ainda era maniqueu, convertou cristãos ao maniqueísmo. Após encontrar a verdade no cristianismo, fez o contrário.
No livro A Doutrina Cristã, Agostinho aborda os três aspectos fundamentais da evangelização: 1. descobrir a verdade na Bíblia; 2. praticar a verdade; e 3. transmitir essa verdade da melhor maneira possível, incluindo: 3.1 - instruir; 3.2 - agradar e, se necessário, 3.3 - convencer. Agostinho sabia do que estava falando.
Certo pregador do evangelho da prosperidade, ao descobrir o que realmente estava fazendo, e gostava de fazer, passou a designar-se empresário da comunicação. Há farto material seu no YouTube em que ele afirma que o segredo do crescimento da igreja não está em Deus, mas nos comunicadores possuidores de aptidões e habilidades apropriadas.
Nesta reflexão desejo apresentar a neurolinguística para quem nunca ouviu falar nela, assim como suas vantagens e riscos como arma de comunicação do Evangelho de Cristo. Agostinho dominou-a intuitivamente. Hitler a usou de forma calculada, embora não lhe tenha dado um nome. Atualmente existem estudos que a explicam detalhadamente, além de pessoas que a usam com má fé.
2. A NEUROLINGUÍSTICA
A neurolinguística, como lembrou um dos seus difusores no campo da autoajuda, representa a decodificação do processo usado intuitivamente pelos melhores comunicadores de todos os tempos e lugares. Ele lembrou, por exemplo, que a comunicação torna-se mais eficiente quando se domina a língua do interlocutor. Na China, pode ser que um estrangeiro consiga alguns resultados comunicando-se apenas por meio de gestos, mas certamente se sairia melhor se falasse chinês na sua versão local.
O discurso, veja amostras neste vídeo, é a principal arma de convencimento. O político pode conseguir mais resultados usando expressões que vão de encontro às paixões, necessidades, frustrações e esperanças do povo. No Brasil pode-se, por exemplo, usar a linguagem do futebol e do samba no que tange às paixões do povo. Em relação às suas necessidades, pode-se acionar a fome dos famintos, ou cortejar os sem teto ou sem emprego. Quanto às frustrações, pode-se acionar a necessidade de estima e autoestima. Pode-se, ainda, coroar essa comunicação compartilhando uma visão de futuro estimulante. Veja, por exemplo, um bom modelo do discurso vitorioso do Presidente Lula neste vídeo.
A neurolinguística está na essência dos grandes líderes. Entre eles, grande pregadores. Mas ela é, igualmente, a arma de Satanás como orador. Veja, por exemplo, o filme O Advogado do Diabo. Nesse filme, Al Pacino mostra o seu talento como ator que domina a arte da oratória. A Bíblia registra que Satanás tentou enganar Jesus Cristo com um discurso que visava a inflar o Seu (de Jesus) ego. Não fosse Ele o Filho de Deus, teria caído na armadilha de render-se a demonstrações do seu poder de fazer milagres e de apossar-se da glória deste mundo.
A neurolinguística consiste no uso dos estímulos capazes de mover os homens em certa direção. Na visão comportamentalista de Skinner, por exemplo, basta combinar recompensa e punição de maneira controlada para conseguir reforçar certos comportamentos e extinguir outros. Já os políticos usam as palavras, como se pode ver neste discurso de Che Guevara. Antes de ser capaz de exercer um senso crítico à altura do desafio, eu tinha Che por herói. Só mudei de opinião quando descobri que ele era apenas um homem violento à procura de um álibi para exercitar-se.
A música tem papel fundamental no amolecimento de corações e mentes. Se os sons são articulados apropriadamente, a letra nem precisa ser compreendida para se obterem os resultados desejados. Veja-se por exemplo, como foi bem vendido o nome Obama neste vídeo . Não é por acaso que Platão julgava que a música tem imenso poder para formar o caráter, podendo contribuir fortemente para transformar o animal humano num ser civilizado ou numa besta. Mais poder tem a música combinada com cenários fantásticos e gestos calculados para impressionar. Hitler e Stalin usaram bem desse conhecimento. A Coréia do Norte o tem explorado com eficiência, embora o seu povo viva na miséria. Mas não é muito diferente nos Estados Unidos, onde se usa o mesmo conhecimento de forma mais disfarçada, por meio de mensagens subliminares.
No livro Comunicação Global, a neurolinguística é indicada por Lair Ribeiro na sua versão popular para conquistar pessoas. O livro Poder Sem Limites, de Anthony Robbins, dá uma versão da mesma atrelada a aconselhamentos para que ela seja usada apenas para o bem. Já o livro A Lei do Triunfo, de Naplleon Hill, que não a conhecia como tal, dá uma síntese de como se pode preparar-se para conseguir objetivos na vida, tendo o autor o cuidado de estimular que se definam objetivos alinhados com o serviço ao próximo. No caso de Hill, ele tinha consciência de que estados de espírito adequados podem ser induzidos, embora sua manutenção seja difícil. Ele fez experimentos a esse respeito em convenções de vendas, tendo obtido resultados espetaculares na elevação do moral dos participantes.
A neurolinguísta, portanto, não é ruim em si mesma. Ela pode ser usada para o mal ou para o bem. Ela foi descoberta durante uma pesquisa financiada pelo governo americano para saber se as técnicas da psicologia realmente funcionam e porquê. O resultado foi: sim, elas funcionam, desde que por trás estejam bons comunicadores que criem empatia com seus pacientes. Richard Bandler explicou o processo no seu livro Usando Sua Mente. Bandler, conjuntamente com John Grinder, escreveram o livro Resignificando, onde demonstram o que ela é e como funciona.
Uma conclusão geral é que todo processo de comunicação eficiente usa, intuitivamente ou conscientemente, a neurolinguística. Ela consiste em acionar as chaves que abrem corações e mentes para torná-los desejosos de fazer aquilo que o comunicador ativo, para não usar o termo manipulador, deseja do seu interlocutor, ou vítima. E isso é usado em larga escala, por exemplo, na propaganda. De certa forma a propaganda trata da psicologia da influência, para lembrar um dos títulos queridos dos especialistas em marketing. Veja-se, por exemplo, INFLUENCE: The Psychology of Persuation, de Robert B. Cialdini.
O comunicador neurolinguístico tem a pretensão de poder: convencer (quase) qualquer um de (quase) qualquer coisa, como faziam os sofistas; tornar-se amado, como fazem os líderes; vender ilusões, como fazem os pregadores de ideologias; e dai por diante. Trata-se, ao estudar o assunto, de elucidar a magia da comunicação. Música, presença cênica, luzes, cheiros, etc., fazem parte do arsenal do comunicador neurolinguístico. Porém, havendo necessidades profundas a explorar, basta que ele use voz e gestos apropriados.
Um livro simples, prático e bem intencionado a respeito é o Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnagie. Todos os livros sobre Como Falar em Público exploram o mesmo princípio. Enfim, trata-se de buscar a comunicação eficiente que pode, dependendo do comunicador, tornar-se manipulação eficiente. O mundo vive disso, daí que o Evangelho de Cristo não deve moldar-se ao mundo, mas buscar transformá-lo pela verdade. Num primeiro momento, a verdade pode ser amarga como o fel, embora, se compreendida e vivida, mostre-se mais doce do que o mel.
Infelizmente, algumas pessoas apossam-se do Evangelho como álibi para ganhar a vida como profissionais da comunicação. Assim, conseguem o que realmente querem: dinheiro, prestígio, emprego, viagens e outras vantagens. Os piores modelos de mercenários nesse campo passam por refinados treinamentos na arte de explorar ovelhas ingênuas e/ou emocionalmente dependentes. Se acreditassem em Deus, saberiam que o inferno os espera. Mas, há os que fazem tudo isso com a consciência limpa, por possuírem vocação para a coisa e nunca refletirem sobre os motivos que estão por trás de sua atuação.
3. ALGUNS CUIDADOS COM A COMUNICAÇÃO DO EVANGELHO
Conforme nos alertou Agostinho, o objetivo da instrução não pode ser manchado pelo agrado e pela persuasão que demanda eloquência do orador, embora não seja errado agradar e persuadir quando a verdade é conhecida, aceita e praticada pelo pregador. Mas, pode ser que o pregador seja um ator/orador nato e, neste caso, ele pode não ter consciência de que está usurpando o lugar de Jesus Cristo.
A manipulação de plateias carentes com músicas, voz modulada sob medida, apelos emocionais e outras encenações não é compatível com a decência na pregação. O uso de cantores que se tornam estrelas, e grupos musicais que imitam a música pagã excitante, são evidências de má consciência caso os atores levem alguma vantagem no processo, seja em dinheiro, seja em prestígio.
Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia (1 Coríntios 10:12), pois é preciso muita humildade para evitar os atrativos da encenação pública. Há quem use conscientemente técnicas de atração do público para, uma vez que as ovelhas em potencial caiam na armadilha, elas recebam a mensagem verdadeira. Não sei até onde é possível fazer isso sem comprometer-se com a mentira e desviar-se da missão de evangelizar para a missão de faturar, sob qualquer pretexto.
Para evitar tais males, justifica-se o culto regulado de forma que seja sóbrio e conservador. Em caso de liberdade criativa, abre-se o caminho para a simples manipulação de líderes adeptos da religião antropocêntrica. Sob esse aspecto, as críticas de alguns ateus inteligentes são pertinentes, e deveriam ser usadas como um sinal enviado por Deus para que a Igreja não se converta ao mundo, ao invés de converter o mundo.
4. CONCLUSÃO
Creio que Agostinho estava certo ao dizer que a missão do pregador deve ser instruir, agradar e convencer. Mas isso se ele está de posse de verdade, crê nela e a pratica, sem afetação. O que se tem visto por ai, em larga escala, é o cinismo de transformar a igreja em teatro, e o pregador em ator que impressiona pela presença cênica. Os ministérios de louvor costumam completar o quadro dessas encenações.
Quem deseja ser um cristão esclarecido, que se informe e se comporte decentemente para que Cristo não seja motivo de piada por sua causa. Quanto a isso, os ignorantes de boa fé estão livres de culpa; mas, aqueles que entram no jogo sabendo suas regras não têm desculpas. A comunicação eficiente ocorre, em primeiro lugar, pelo exemplo. Ela pode usar meios que agradam e persuadem, mas desde que esses meios não se tornem fins em si mesmo.
Pelo uso competente da neurolinguística, podem-se hipnotizar indivíduos, grupos de indivíduos, ou grandes populações, induzindo ovelhas indefesas a entregarem-se a lobos vorazes. As moblizações de guerra o comprovam. A propaganda moderna o comprova. Na política, ela é usada à esquerda, à direita e pelo centro. Mas ela pode ser usada na sua forma mais pura e sem manipulação pelos que defendem a verdade, como Gandhi e Martin Luther King.
Embora Gandhi e King fossem homens imperfeitos, até mais do que a maioria em alguns aspectos, foram usados para demonstrar a possibilidade de mudanças positivas profundas no mundo injusto. Só que, neste caso, é preciso ter mais coragem de morrer do que de matar, ou de perder uma causa do que vencê-la usando fraude. Os políticos em geral não entendem, ou não querem entender isso, pois adotam a neurolinguística na sua versão demoníaca. Imagine todo esse poder sendo usado malandramente em nome de Cristo visando a escravizar mentes frágeis!
No caso da comunicação do Evangelho de Cristo, melhor seria banir tudo que exalta a aparência, ficando apenas com a verdade nua e crua. A verdade é simples, é humilde, é decente. Não finge ser o que não é, nem vive de ilusões. Cristo é a Verdade, o Caminho e a Vida. Os atores do teatro deste mundo podem excitar-se à vontade, mas só encontrarão descanso na Verdade, conforme ilustra este vídeo.
RESUMO
Nesta reflexão defendo que a excelência em comunicação, esta representada pelo uso consciente ou não da neurolinguística, pode tanto ajudar quanto atrapalhar a disseminação do Evangelho de Cristo. Tudo depende da intenção. Quando há exageros, é fácil detectar eventuais jogos de cena. Contudo, se se aproveitam dons naturais, ou se a encenação é feita profissionalmente, só Deus pode livrar as ovelhas de eventuais ciladas.
1. INTRODUÇÃO
Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho da Igreja Católica, foi, primeiramente, professor de retórica. Ele conhecia a importância da eloquência. Quando ainda era maniqueu, convertou cristãos ao maniqueísmo. Após encontrar a verdade no cristianismo, fez o contrário.
No livro A Doutrina Cristã, Agostinho aborda os três aspectos fundamentais da evangelização: 1. descobrir a verdade na Bíblia; 2. praticar a verdade; e 3. transmitir essa verdade da melhor maneira possível, incluindo: 3.1 - instruir; 3.2 - agradar e, se necessário, 3.3 - convencer. Agostinho sabia do que estava falando.
Certo pregador do evangelho da prosperidade, ao descobrir o que realmente estava fazendo, e gostava de fazer, passou a designar-se empresário da comunicação. Há farto material seu no YouTube em que ele afirma que o segredo do crescimento da igreja não está em Deus, mas nos comunicadores possuidores de aptidões e habilidades apropriadas.
Nesta reflexão desejo apresentar a neurolinguística para quem nunca ouviu falar nela, assim como suas vantagens e riscos como arma de comunicação do Evangelho de Cristo. Agostinho dominou-a intuitivamente. Hitler a usou de forma calculada, embora não lhe tenha dado um nome. Atualmente existem estudos que a explicam detalhadamente, além de pessoas que a usam com má fé.
2. A NEUROLINGUÍSTICA
A neurolinguística, como lembrou um dos seus difusores no campo da autoajuda, representa a decodificação do processo usado intuitivamente pelos melhores comunicadores de todos os tempos e lugares. Ele lembrou, por exemplo, que a comunicação torna-se mais eficiente quando se domina a língua do interlocutor. Na China, pode ser que um estrangeiro consiga alguns resultados comunicando-se apenas por meio de gestos, mas certamente se sairia melhor se falasse chinês na sua versão local.
O discurso, veja amostras neste vídeo, é a principal arma de convencimento. O político pode conseguir mais resultados usando expressões que vão de encontro às paixões, necessidades, frustrações e esperanças do povo. No Brasil pode-se, por exemplo, usar a linguagem do futebol e do samba no que tange às paixões do povo. Em relação às suas necessidades, pode-se acionar a fome dos famintos, ou cortejar os sem teto ou sem emprego. Quanto às frustrações, pode-se acionar a necessidade de estima e autoestima. Pode-se, ainda, coroar essa comunicação compartilhando uma visão de futuro estimulante. Veja, por exemplo, um bom modelo do discurso vitorioso do Presidente Lula neste vídeo.
A neurolinguística está na essência dos grandes líderes. Entre eles, grande pregadores. Mas ela é, igualmente, a arma de Satanás como orador. Veja, por exemplo, o filme O Advogado do Diabo. Nesse filme, Al Pacino mostra o seu talento como ator que domina a arte da oratória. A Bíblia registra que Satanás tentou enganar Jesus Cristo com um discurso que visava a inflar o Seu (de Jesus) ego. Não fosse Ele o Filho de Deus, teria caído na armadilha de render-se a demonstrações do seu poder de fazer milagres e de apossar-se da glória deste mundo.
A neurolinguística consiste no uso dos estímulos capazes de mover os homens em certa direção. Na visão comportamentalista de Skinner, por exemplo, basta combinar recompensa e punição de maneira controlada para conseguir reforçar certos comportamentos e extinguir outros. Já os políticos usam as palavras, como se pode ver neste discurso de Che Guevara. Antes de ser capaz de exercer um senso crítico à altura do desafio, eu tinha Che por herói. Só mudei de opinião quando descobri que ele era apenas um homem violento à procura de um álibi para exercitar-se.
A música tem papel fundamental no amolecimento de corações e mentes. Se os sons são articulados apropriadamente, a letra nem precisa ser compreendida para se obterem os resultados desejados. Veja-se por exemplo, como foi bem vendido o nome Obama neste vídeo . Não é por acaso que Platão julgava que a música tem imenso poder para formar o caráter, podendo contribuir fortemente para transformar o animal humano num ser civilizado ou numa besta. Mais poder tem a música combinada com cenários fantásticos e gestos calculados para impressionar. Hitler e Stalin usaram bem desse conhecimento. A Coréia do Norte o tem explorado com eficiência, embora o seu povo viva na miséria. Mas não é muito diferente nos Estados Unidos, onde se usa o mesmo conhecimento de forma mais disfarçada, por meio de mensagens subliminares.
No livro Comunicação Global, a neurolinguística é indicada por Lair Ribeiro na sua versão popular para conquistar pessoas. O livro Poder Sem Limites, de Anthony Robbins, dá uma versão da mesma atrelada a aconselhamentos para que ela seja usada apenas para o bem. Já o livro A Lei do Triunfo, de Naplleon Hill, que não a conhecia como tal, dá uma síntese de como se pode preparar-se para conseguir objetivos na vida, tendo o autor o cuidado de estimular que se definam objetivos alinhados com o serviço ao próximo. No caso de Hill, ele tinha consciência de que estados de espírito adequados podem ser induzidos, embora sua manutenção seja difícil. Ele fez experimentos a esse respeito em convenções de vendas, tendo obtido resultados espetaculares na elevação do moral dos participantes.
A neurolinguísta, portanto, não é ruim em si mesma. Ela pode ser usada para o mal ou para o bem. Ela foi descoberta durante uma pesquisa financiada pelo governo americano para saber se as técnicas da psicologia realmente funcionam e porquê. O resultado foi: sim, elas funcionam, desde que por trás estejam bons comunicadores que criem empatia com seus pacientes. Richard Bandler explicou o processo no seu livro Usando Sua Mente. Bandler, conjuntamente com John Grinder, escreveram o livro Resignificando, onde demonstram o que ela é e como funciona.
Uma conclusão geral é que todo processo de comunicação eficiente usa, intuitivamente ou conscientemente, a neurolinguística. Ela consiste em acionar as chaves que abrem corações e mentes para torná-los desejosos de fazer aquilo que o comunicador ativo, para não usar o termo manipulador, deseja do seu interlocutor, ou vítima. E isso é usado em larga escala, por exemplo, na propaganda. De certa forma a propaganda trata da psicologia da influência, para lembrar um dos títulos queridos dos especialistas em marketing. Veja-se, por exemplo, INFLUENCE: The Psychology of Persuation, de Robert B. Cialdini.
O comunicador neurolinguístico tem a pretensão de poder: convencer (quase) qualquer um de (quase) qualquer coisa, como faziam os sofistas; tornar-se amado, como fazem os líderes; vender ilusões, como fazem os pregadores de ideologias; e dai por diante. Trata-se, ao estudar o assunto, de elucidar a magia da comunicação. Música, presença cênica, luzes, cheiros, etc., fazem parte do arsenal do comunicador neurolinguístico. Porém, havendo necessidades profundas a explorar, basta que ele use voz e gestos apropriados.
Um livro simples, prático e bem intencionado a respeito é o Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnagie. Todos os livros sobre Como Falar em Público exploram o mesmo princípio. Enfim, trata-se de buscar a comunicação eficiente que pode, dependendo do comunicador, tornar-se manipulação eficiente. O mundo vive disso, daí que o Evangelho de Cristo não deve moldar-se ao mundo, mas buscar transformá-lo pela verdade. Num primeiro momento, a verdade pode ser amarga como o fel, embora, se compreendida e vivida, mostre-se mais doce do que o mel.
Infelizmente, algumas pessoas apossam-se do Evangelho como álibi para ganhar a vida como profissionais da comunicação. Assim, conseguem o que realmente querem: dinheiro, prestígio, emprego, viagens e outras vantagens. Os piores modelos de mercenários nesse campo passam por refinados treinamentos na arte de explorar ovelhas ingênuas e/ou emocionalmente dependentes. Se acreditassem em Deus, saberiam que o inferno os espera. Mas, há os que fazem tudo isso com a consciência limpa, por possuírem vocação para a coisa e nunca refletirem sobre os motivos que estão por trás de sua atuação.
3. ALGUNS CUIDADOS COM A COMUNICAÇÃO DO EVANGELHO
Conforme nos alertou Agostinho, o objetivo da instrução não pode ser manchado pelo agrado e pela persuasão que demanda eloquência do orador, embora não seja errado agradar e persuadir quando a verdade é conhecida, aceita e praticada pelo pregador. Mas, pode ser que o pregador seja um ator/orador nato e, neste caso, ele pode não ter consciência de que está usurpando o lugar de Jesus Cristo.
A manipulação de plateias carentes com músicas, voz modulada sob medida, apelos emocionais e outras encenações não é compatível com a decência na pregação. O uso de cantores que se tornam estrelas, e grupos musicais que imitam a música pagã excitante, são evidências de má consciência caso os atores levem alguma vantagem no processo, seja em dinheiro, seja em prestígio.
Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia (1 Coríntios 10:12), pois é preciso muita humildade para evitar os atrativos da encenação pública. Há quem use conscientemente técnicas de atração do público para, uma vez que as ovelhas em potencial caiam na armadilha, elas recebam a mensagem verdadeira. Não sei até onde é possível fazer isso sem comprometer-se com a mentira e desviar-se da missão de evangelizar para a missão de faturar, sob qualquer pretexto.
Para evitar tais males, justifica-se o culto regulado de forma que seja sóbrio e conservador. Em caso de liberdade criativa, abre-se o caminho para a simples manipulação de líderes adeptos da religião antropocêntrica. Sob esse aspecto, as críticas de alguns ateus inteligentes são pertinentes, e deveriam ser usadas como um sinal enviado por Deus para que a Igreja não se converta ao mundo, ao invés de converter o mundo.
4. CONCLUSÃO
Creio que Agostinho estava certo ao dizer que a missão do pregador deve ser instruir, agradar e convencer. Mas isso se ele está de posse de verdade, crê nela e a pratica, sem afetação. O que se tem visto por ai, em larga escala, é o cinismo de transformar a igreja em teatro, e o pregador em ator que impressiona pela presença cênica. Os ministérios de louvor costumam completar o quadro dessas encenações.
Quem deseja ser um cristão esclarecido, que se informe e se comporte decentemente para que Cristo não seja motivo de piada por sua causa. Quanto a isso, os ignorantes de boa fé estão livres de culpa; mas, aqueles que entram no jogo sabendo suas regras não têm desculpas. A comunicação eficiente ocorre, em primeiro lugar, pelo exemplo. Ela pode usar meios que agradam e persuadem, mas desde que esses meios não se tornem fins em si mesmo.
Pelo uso competente da neurolinguística, podem-se hipnotizar indivíduos, grupos de indivíduos, ou grandes populações, induzindo ovelhas indefesas a entregarem-se a lobos vorazes. As moblizações de guerra o comprovam. A propaganda moderna o comprova. Na política, ela é usada à esquerda, à direita e pelo centro. Mas ela pode ser usada na sua forma mais pura e sem manipulação pelos que defendem a verdade, como Gandhi e Martin Luther King.
Embora Gandhi e King fossem homens imperfeitos, até mais do que a maioria em alguns aspectos, foram usados para demonstrar a possibilidade de mudanças positivas profundas no mundo injusto. Só que, neste caso, é preciso ter mais coragem de morrer do que de matar, ou de perder uma causa do que vencê-la usando fraude. Os políticos em geral não entendem, ou não querem entender isso, pois adotam a neurolinguística na sua versão demoníaca. Imagine todo esse poder sendo usado malandramente em nome de Cristo visando a escravizar mentes frágeis!
No caso da comunicação do Evangelho de Cristo, melhor seria banir tudo que exalta a aparência, ficando apenas com a verdade nua e crua. A verdade é simples, é humilde, é decente. Não finge ser o que não é, nem vive de ilusões. Cristo é a Verdade, o Caminho e a Vida. Os atores do teatro deste mundo podem excitar-se à vontade, mas só encontrarão descanso na Verdade, conforme ilustra este vídeo.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Jesus Cristo entre alternativas concorrentes
Uma breve reflexão
RESUMO
A ideia básica desta reflexão é que Jesus Cristo não pode ser ignorado, seja para refutá-Lo, seja para aceitá-Lo. Argumento que, entre as alternativas que concorrem com Ele, algumas não são propriamente concorrentes, pois tratam-se de verdades universais a serem absorvidas pelo homem racional. Outras, como o marxismo, são incompatíveis com Ele. Argumento que é preciso, como sugeriu o Apóstolo Paulo, examinar todas as visões de mundo, ficar com o que é verdadeiro em cada uma delas, e submeter-se ao Evangelho como diretriz fundamental da vida com Cristo. Ressalto que os mais perigosos inimigos de Cristo são os falsos Cristãos, e não propriamente os ateus e agnósticos assumidos. Alguns fariseus aproximam-se do rebanho de Cristo para tirar vantagens pessoais do relacionamento com as ovelhas; outros criam igrejas como negócios; outros ajudam a preservar o negócio para garantir sua carreira. Os maiores inimigos de Cristo, contudo, são os marketeiros que aviltam o Seu Nome diante do mundo, e que justificam suas ações daninhas em nome do crescimento da igreja.
1. INTRODUÇÃO
O ser humano, que chamarei simplesmente de homem, não pode fazer certas escolhas ao nascer. Porém, uma vez que ele viva em sociedades abertas, e desde que aprenda a raciocinar, ele pode examinar suas condições de existência para escolher o caminho a seguir na rotatória da vida. Em algum momento ele é confrontado com a opção Jesus Cristo. E não poderá fugir de enfrentar essa responsabilidade.
Sigmund Freud, por exemplo, o ateu pai da psicanálise, afirmou que Jesus tem grande chance de ser um mito. Mas, se o for, afirmou Freud, o criador desse mito deve ser admirado por sua inteligência superior da qual fluiu tamanha criatividade. Ele ainda afirmou que a Humanidade deveria ter uma chance de viver sem Deus, para defrontar-se com a realidade da vida e assumir responsabilidades, mas concluiu dizendo que isso era apenas um hipótese, pois não poderia provar que Deus não existe.
Albert Schweitzer revisitou o Jesus histórico dos pesquisadores que O queriam restaurar, e concluiu que, se levássemos em conta as provas que eles conseguiram reunir, Jesus deveria ser considerado um mito. Entretanto, ele concluiu que "Jesus, tenha existido ou não, é fonte de força espiritual inesgotável que tem alimentado a esperança da Humanidade através dos séculos". Schweitzer vendeu tudo o que tinha e foi cuidar de leprosos na África, exatamente como foi recomendado pelo Jesus bíblico.
As afirmações de Freud e Schweitzer, entre outras, estimulam que Jesus Cristo seja levado em consideração, seja para aceitá-Lo, seja para refutá-Lo. Como guia para orientação da vida, algumas alternativas concorrem com Ele, e algumas delas podem conviver bem com Ele. Contudo, o homem que se julga capaz de raciocinar deve avaliar as principais alternativas ao seu alcance. Reflitamos sobre algumas dessas alternativas.
2. ALGUMAS DAS ALTERNATIVAS QUE CONCORREM COM JESUS CRISTO
O homem pode agir como um indivíduo autosuficiente, isolando-se de tudo e de todos, ou associando-se apenas por conveniência. Feita tal opção ele autoexclui-se da solidariedade humanista e do compartilhamento de um senso de divindade. A máxima desse tipo de vida é atribuída a Aleister Crowler, considerado satanista: faça o que quiseres que é tudo da lei, conforme ilustra a música Sociedade Alternativa, de Raul Seixas.
Contudo, Jesus Cristo, e não Crowler, foi quem trouxe a mensagem de máxima liberdade para o indivíduo: a liberdade que se conquista com a verdade sobre si mesmo e sua relação com a fonte e destino da vida. A liberdade que se preconiza para o Cristão é descrita em 1 Coríntios 6:12, onde se lê: "Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma." Mas a condição para que ela se concretize é o amor, conforme se vê em 1 Coríntios 13:4, pois "O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece."
O homem pode alegar que, sendo racional, não precisa colocar Deus em evidência, pois o que dEle se pode aproveitar já está na essência humana. Quanto a isso ele poderia evocar João 1:1, apenas substituindo as palavras Verbo, Palavra ou Logos, por Razão, e o resultado seria: "No princípio era a Razão, e a Razão estava com Deus, e a Razão era Deus." Se ele entende a Razão em seu sentido profundo, agirá sempre com responsabilidade, mesmo que se diga ateu, pois substituirá o amor por respeito: a si mesmo, ao próximo, ao meio ambiente e à vida em geral. A esse respeito é sempre bom lembrar Tiago 2:19, que diz: "Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o crêem, e estremecem."
O marxista tem, no comunismo, uma alternativa a Jesus Cristo que constitui uma visão de mundo completa e que O exclui por princípio, pois o primeiro fundamento do comunismo, segundo Marx, é o ateísmo. Segundo essa alternativa, o homem deve contentar-se com sua finitude sem tentar conectar-se a algo que lhe seja transcendente. A consciência humana não teria origem em algo chamado Deus, mas no próprio organismo humano vivo que se torna consciente de si no processo de vida em sociedade. Nessa perspectiva, a solução para uma sociedade justa e solidária estaria em seguir as orientações do Partido dos Trabalhadores Unidos, ou algo equivalente, abolindo as classes sociais. Essa solução é uma espécie de religião sem Deus e sem esperança que vá além desta vida, em que o "papa" é o líder de um partido dirigido por uma rede de pessoas subservientes a esse papa. Os exemplos atuais desse tipo de visão de mundo são a Coreia do Norte, Cuba, e uma China em reconciliação com a ideia de um capitalismo de Estado, porém com direção centralizada.
O homem pode, como Buda, acreditar que é potencialmente perfeito, mas que essa perfeição precisa ser atualizada por esforço próprio, mediante ajuda inicial de um guia autorrealizado. Pelo menos em seus ensinamentos populares, Buda assumia que Deus não precisa ser levado em consideração, pois, não sabendo de onde veio ou para onde vai, resta a cada homem apenas cuidar de sua vida neste mundo da melhor maneira possível. O budismo popular parece mais uma filosofia das virtudes, centrada no autocontrole, este defendido em Gênesis 4:7 "Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar."
O homem pode escolher seguir o caminho de Sócrates. Ele foi introdutor da ideia do Deus único numa Grécia que adorava muitos deuses. Sua base era racional, e pressupunha a busca do conhecimento de si mesmo partindo da aceitação da existência de um Deus que, segundo afirmou, o escolhera para alertar os homens ao seu alcance quanto à sua (do homem) verdadeira essência. A via socrática poderia ser aperfeiçoada com os ensinamentos de Platão e Aristóteles, ambos seus discípulos, produzindo homens sábios, piedosos e virtuosos. O catolicismo romano absorveu esse tipo de filosofia como sendo uma base comum da civilização e, portanto, compatível com o cristianismo na sua versão católica.
Há, ainda, uma visão de que Jesus Cristo é um símbolo de homem - Jesus - que realizou a sua divindade - Cristo -. A divindade seria a razão espiritual concedida a todo ser humano, mas que precisa ser conscientizada e vivida. Jesus, sob essa perspectiva, teria sido a encarnação do Cristo no homem. Jesus Cristo seria o Homem-Deus do cristianismo, mas Ele se realizaria em qualquer homem, em qualquer lugar do mundo em que houvesse um despartar para o autoconhecimento, que leva à relização do Cristo interior. Isso correponderia à autorrealização em qualquer filosofia ou religião.
A visão acima pode ser apresentada com diversos rótulos, tais como: unitarismo, ou universalismo, ou transcendentalismo, ou monismo, de acordo com o intérprete. No Brasil, essa visão foi defendida pelo educador Huberto Rhoden na sua "filosofia univérsica", compreendendo várias obras. Na Índia, além de Gandhi, que também buscava conhecimento em qualquer fonte que julgasse verdadeira, como o Sermão do Monte de Cristo, ela foi defendida pelo santo hindu Paramahansa Yoganda, no livro Autobiografia de um Yogue. Paramahansa, entre outros, defendeu a unidade de todas as religiões a partir do amor a Deus e ao próximo. A música Gita, de Raul Seixas, expressa a possível universalidade dessa mensagem a partir do livro sagrado hindu Bhagavad Gita. Mas, esse livro, se lido sem as explicações de sábios, como Huberto Rhoden, ou Gandhi, pode levar a grandes equívocos, inclusive justificar a guerra santa, entre outras loucuras.
Parece-me que um dos maiores concorrentes de Jesus Cristo, atualmente, é o consumismo. O homem-consumidor pode dizer-se individualista, ou coletivista, ou ateu, ou crente, ou uma combinação de tudo isso. O consumismo é uma das faces da adoração de Mamom - o dinheiro -, mas tem outros aspectos que lhe são inerentes, como a ânsia pelo entretenimento. Não é incomum, mesmo em igrejas protestantes históricas, que o pregador haja como um humorista cujo sucesso depende de fazer sua plateía rir à vontade. Com isso ele mantém a igreja-teatro sempre cheia.
3. O ENCONTRO COM JESUS CRISTO
Alguns dos caminhos apresentados anteriormente não precisam concorrer com o caminho indicado por Jesus Cristo. Alguns são verdadeiros, e até necessários à vida saudável, sendo compatíveis com a mensagem de Cristo. É o caso, por exemplo, dos aspectos universais das filosofias de Sócrates, Platão e de Aristótles. Parte da filosofia de Platão foi absorvida por Agostinho de Hipona e incorporada ao cristianismo. A filosofia de Aristóteles foi reinterpretada por Tomás de Aquino e absorvida na sua teologia cristã. Os Reformadores Protestantes Lutero e Calvino, embora tenham rejeitado a inserção da filosofia de Aristóteles na doutrina de Cristo, endossaram alguns aspectos da filosofia platônica.
Quanto à filosofia de Sócrates, do qual Platão e Aristóteles foram discípulos, interpreto-a como a filosofia da busca. No caso, parte-se da revelação geral de que Deus existe e tem um plano para cada pessoa, mas cada pessoa deve fazer sua própria investigação, sempre buscando, batendo à porta e pedindo sabedoria. A busca do conhecimento e, em especial, a busca do autoconhecimento, seria o motor dessa filosofia socrática que, segundo posso avaliar, consiste no uso da razão para descobrir a verdade. E conforme foi dito: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. João 8:32".
Há bons exemplos de pessoas que chegaram a Cristo pelo uso da razão. Nesse tipo de via pode-se, num primeiro momento, até conluir que Jesus Cristo não é o melhor modelo de homem. Este foi o caso de Bertrand Russel, um homem inteligente de comportamento moral exemplar. Esse tipo de conclusão é reforçado por evidências de que coisas ruins têm sido perpetradas pelos supostos seguidores de Cristo ao longo do tempo, como guerras e injustiças diversas. Há, ainda, vendedores de ilusões que falam em nome de Cristo, como ilustra a música Pastor João, de Raul Seixas.
Contudo, Bertrand Russel tirou conclusões antes de completar suas pesquisas. Outros homens de grande capacidade intelectual foram mais longe, passando pela posição ateísta de Russel, porém superando-a. Os modelos clássicos de homens racionais que encontraram Cristo após intensa busca são, entre outros: Agostinho de Hipona, C. S. Lewis e G. K. Chesterton. Agostinho veio a tornar-se o Santo Agostinho da Igreja Católica Romana, tendo registrado sua conversão no livro Confissões, entre outros clássicos do pensamento filosófico ocidental. Seu clássico A Doutrina Cristã, sintetiza o que ele entendeu como sendo o cristianismo verdadeiro. Lewis descreveu sua experiência no livro Surpreendido pela Alegria, enquanto Chesterton registrou sua experiência no livro Ortodoxia.
Mas, há outras maneiras de chegar a Cristo além do uso intencional da razão: o amor e o sofrimento. Ao amar o próximo como a si mesmo, mesmo sendo ignorante quanto a Deus, o homem pode ser surpreendido pela alegria de saber que Deus o acolheu. Mas esse acolhimento pode ocorrer, por outro lado, por um pedido de socorro verdadeiro e disposto à conversão de vida, após ser esmagado por sofrimento indizível. Os que amam, e os que sofrem, estão em condições de buscá-Lo, ou de serem buscados por Ele. Jesus Cristo mesmo ilustrou essas possibilidades.
4. CONCLUSÃO
Em síntese, entre todas as alternativas concorrentes, Jesus Cristo é aquela que traz a maior esperança e que pode dar mais significado à vida. Algumas entre as alternativas apresentadas nem são concorrentes, pois podem conviver lado a lado com a mensagem de Cristo. Uma boa filosofia pagã, por exemplo, que considera as virtudes como necessárias à vida saudável, pode ser absorvida, pois é um pressuposto que os que forem libertos por Cristo terão uma vida virtuosa, embora sua salvação não dependa de suas virtudes.
Por outro lado, o Nome de Jesus passou a ser vendido no mercado como um produto capaz de render altos dividendos, seja em dinheiro, seja em milagres. Certo negociante da fé chegou a afirmar que "Deus é um produto que quase se vende sozinho". Porém, não importa o quanto o Seu Nome seja usado como álibi por pessoas desonestas e exploradoras das carências humanas. Tudo isso já fora previsto por Ele. Tais usurpadores são como o joio que cresce com o trigo, e que será separado na colheita. Veja uma análise crítica dos marketeiros usurpadores do poder de Deus diante do povo ignorante neste vídeo.
Uma grande esperança permanece nas Palavras de Cristo, que se colocou como intermediário entre o homem e sua verdadeira origem e destino. Ele ensinou a orar ao Pai em Mateus 6:9-13, e ainda ressaltou em Lucas 11:9, em relação ao Pai: "E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á". De fato, mesmo sendo enganados por usurpadores do poder de Deus, muitas pessoas ingênuas de boa fé têm encontrado a paz que supera todo entendimento. Neste caso, o problema será dos usurpadores, mas é sempre bom identificá-los e abandoná-los.
Contudo, o ponto central a considerar é que o Evangelho de Jesus Cristo não é uma teoria a ser recitada e defendida. É preciso, como Ele mesmo disse, praticá-lo no dia-a-dia, embora, pela condição inerente ao homem, essa prática tenha altos e baixos. Não há outro meio de chegar a Deus. Algumas ações que são compatíveis com esse compromisso:
Cuidar dos órfãos e das viúva nas suas tribulações;
Fazer aos outros aquilo que gostaríamos que eles nos fizessem;
Cumprir os deveres para com o Estado (dar a César o que é de César);
Produzir o máximo, consumir o mínimo, e distribuir o máximo aos necessitados, mas, sobretudo, ajudando-os a tornarem-se autossustentáveis;
Ajudar o próximo a encontrar a Verdade que liberta;
Buscar a Deus individualmente ou em grupo, no silêncio ou na exaltação pública, de acordo com o temperamento de cada um, mas tomando o cuidado de que não preveleça a virtude das aparências, isto é, o farisaísmo.
Enfim, produzir os frutos dos desdobramentos da missão de "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo".
RESUMO
A ideia básica desta reflexão é que Jesus Cristo não pode ser ignorado, seja para refutá-Lo, seja para aceitá-Lo. Argumento que, entre as alternativas que concorrem com Ele, algumas não são propriamente concorrentes, pois tratam-se de verdades universais a serem absorvidas pelo homem racional. Outras, como o marxismo, são incompatíveis com Ele. Argumento que é preciso, como sugeriu o Apóstolo Paulo, examinar todas as visões de mundo, ficar com o que é verdadeiro em cada uma delas, e submeter-se ao Evangelho como diretriz fundamental da vida com Cristo. Ressalto que os mais perigosos inimigos de Cristo são os falsos Cristãos, e não propriamente os ateus e agnósticos assumidos. Alguns fariseus aproximam-se do rebanho de Cristo para tirar vantagens pessoais do relacionamento com as ovelhas; outros criam igrejas como negócios; outros ajudam a preservar o negócio para garantir sua carreira. Os maiores inimigos de Cristo, contudo, são os marketeiros que aviltam o Seu Nome diante do mundo, e que justificam suas ações daninhas em nome do crescimento da igreja.
1. INTRODUÇÃO
O ser humano, que chamarei simplesmente de homem, não pode fazer certas escolhas ao nascer. Porém, uma vez que ele viva em sociedades abertas, e desde que aprenda a raciocinar, ele pode examinar suas condições de existência para escolher o caminho a seguir na rotatória da vida. Em algum momento ele é confrontado com a opção Jesus Cristo. E não poderá fugir de enfrentar essa responsabilidade.
Sigmund Freud, por exemplo, o ateu pai da psicanálise, afirmou que Jesus tem grande chance de ser um mito. Mas, se o for, afirmou Freud, o criador desse mito deve ser admirado por sua inteligência superior da qual fluiu tamanha criatividade. Ele ainda afirmou que a Humanidade deveria ter uma chance de viver sem Deus, para defrontar-se com a realidade da vida e assumir responsabilidades, mas concluiu dizendo que isso era apenas um hipótese, pois não poderia provar que Deus não existe.
Albert Schweitzer revisitou o Jesus histórico dos pesquisadores que O queriam restaurar, e concluiu que, se levássemos em conta as provas que eles conseguiram reunir, Jesus deveria ser considerado um mito. Entretanto, ele concluiu que "Jesus, tenha existido ou não, é fonte de força espiritual inesgotável que tem alimentado a esperança da Humanidade através dos séculos". Schweitzer vendeu tudo o que tinha e foi cuidar de leprosos na África, exatamente como foi recomendado pelo Jesus bíblico.
As afirmações de Freud e Schweitzer, entre outras, estimulam que Jesus Cristo seja levado em consideração, seja para aceitá-Lo, seja para refutá-Lo. Como guia para orientação da vida, algumas alternativas concorrem com Ele, e algumas delas podem conviver bem com Ele. Contudo, o homem que se julga capaz de raciocinar deve avaliar as principais alternativas ao seu alcance. Reflitamos sobre algumas dessas alternativas.
2. ALGUMAS DAS ALTERNATIVAS QUE CONCORREM COM JESUS CRISTO
O homem pode agir como um indivíduo autosuficiente, isolando-se de tudo e de todos, ou associando-se apenas por conveniência. Feita tal opção ele autoexclui-se da solidariedade humanista e do compartilhamento de um senso de divindade. A máxima desse tipo de vida é atribuída a Aleister Crowler, considerado satanista: faça o que quiseres que é tudo da lei, conforme ilustra a música Sociedade Alternativa, de Raul Seixas.
Contudo, Jesus Cristo, e não Crowler, foi quem trouxe a mensagem de máxima liberdade para o indivíduo: a liberdade que se conquista com a verdade sobre si mesmo e sua relação com a fonte e destino da vida. A liberdade que se preconiza para o Cristão é descrita em 1 Coríntios 6:12, onde se lê: "Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma." Mas a condição para que ela se concretize é o amor, conforme se vê em 1 Coríntios 13:4, pois "O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece."
O homem pode alegar que, sendo racional, não precisa colocar Deus em evidência, pois o que dEle se pode aproveitar já está na essência humana. Quanto a isso ele poderia evocar João 1:1, apenas substituindo as palavras Verbo, Palavra ou Logos, por Razão, e o resultado seria: "No princípio era a Razão, e a Razão estava com Deus, e a Razão era Deus." Se ele entende a Razão em seu sentido profundo, agirá sempre com responsabilidade, mesmo que se diga ateu, pois substituirá o amor por respeito: a si mesmo, ao próximo, ao meio ambiente e à vida em geral. A esse respeito é sempre bom lembrar Tiago 2:19, que diz: "Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o crêem, e estremecem."
O marxista tem, no comunismo, uma alternativa a Jesus Cristo que constitui uma visão de mundo completa e que O exclui por princípio, pois o primeiro fundamento do comunismo, segundo Marx, é o ateísmo. Segundo essa alternativa, o homem deve contentar-se com sua finitude sem tentar conectar-se a algo que lhe seja transcendente. A consciência humana não teria origem em algo chamado Deus, mas no próprio organismo humano vivo que se torna consciente de si no processo de vida em sociedade. Nessa perspectiva, a solução para uma sociedade justa e solidária estaria em seguir as orientações do Partido dos Trabalhadores Unidos, ou algo equivalente, abolindo as classes sociais. Essa solução é uma espécie de religião sem Deus e sem esperança que vá além desta vida, em que o "papa" é o líder de um partido dirigido por uma rede de pessoas subservientes a esse papa. Os exemplos atuais desse tipo de visão de mundo são a Coreia do Norte, Cuba, e uma China em reconciliação com a ideia de um capitalismo de Estado, porém com direção centralizada.
O homem pode, como Buda, acreditar que é potencialmente perfeito, mas que essa perfeição precisa ser atualizada por esforço próprio, mediante ajuda inicial de um guia autorrealizado. Pelo menos em seus ensinamentos populares, Buda assumia que Deus não precisa ser levado em consideração, pois, não sabendo de onde veio ou para onde vai, resta a cada homem apenas cuidar de sua vida neste mundo da melhor maneira possível. O budismo popular parece mais uma filosofia das virtudes, centrada no autocontrole, este defendido em Gênesis 4:7 "Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar."
O homem pode escolher seguir o caminho de Sócrates. Ele foi introdutor da ideia do Deus único numa Grécia que adorava muitos deuses. Sua base era racional, e pressupunha a busca do conhecimento de si mesmo partindo da aceitação da existência de um Deus que, segundo afirmou, o escolhera para alertar os homens ao seu alcance quanto à sua (do homem) verdadeira essência. A via socrática poderia ser aperfeiçoada com os ensinamentos de Platão e Aristóteles, ambos seus discípulos, produzindo homens sábios, piedosos e virtuosos. O catolicismo romano absorveu esse tipo de filosofia como sendo uma base comum da civilização e, portanto, compatível com o cristianismo na sua versão católica.
Há, ainda, uma visão de que Jesus Cristo é um símbolo de homem - Jesus - que realizou a sua divindade - Cristo -. A divindade seria a razão espiritual concedida a todo ser humano, mas que precisa ser conscientizada e vivida. Jesus, sob essa perspectiva, teria sido a encarnação do Cristo no homem. Jesus Cristo seria o Homem-Deus do cristianismo, mas Ele se realizaria em qualquer homem, em qualquer lugar do mundo em que houvesse um despartar para o autoconhecimento, que leva à relização do Cristo interior. Isso correponderia à autorrealização em qualquer filosofia ou religião.
A visão acima pode ser apresentada com diversos rótulos, tais como: unitarismo, ou universalismo, ou transcendentalismo, ou monismo, de acordo com o intérprete. No Brasil, essa visão foi defendida pelo educador Huberto Rhoden na sua "filosofia univérsica", compreendendo várias obras. Na Índia, além de Gandhi, que também buscava conhecimento em qualquer fonte que julgasse verdadeira, como o Sermão do Monte de Cristo, ela foi defendida pelo santo hindu Paramahansa Yoganda, no livro Autobiografia de um Yogue. Paramahansa, entre outros, defendeu a unidade de todas as religiões a partir do amor a Deus e ao próximo. A música Gita, de Raul Seixas, expressa a possível universalidade dessa mensagem a partir do livro sagrado hindu Bhagavad Gita. Mas, esse livro, se lido sem as explicações de sábios, como Huberto Rhoden, ou Gandhi, pode levar a grandes equívocos, inclusive justificar a guerra santa, entre outras loucuras.
Parece-me que um dos maiores concorrentes de Jesus Cristo, atualmente, é o consumismo. O homem-consumidor pode dizer-se individualista, ou coletivista, ou ateu, ou crente, ou uma combinação de tudo isso. O consumismo é uma das faces da adoração de Mamom - o dinheiro -, mas tem outros aspectos que lhe são inerentes, como a ânsia pelo entretenimento. Não é incomum, mesmo em igrejas protestantes históricas, que o pregador haja como um humorista cujo sucesso depende de fazer sua plateía rir à vontade. Com isso ele mantém a igreja-teatro sempre cheia.
3. O ENCONTRO COM JESUS CRISTO
Alguns dos caminhos apresentados anteriormente não precisam concorrer com o caminho indicado por Jesus Cristo. Alguns são verdadeiros, e até necessários à vida saudável, sendo compatíveis com a mensagem de Cristo. É o caso, por exemplo, dos aspectos universais das filosofias de Sócrates, Platão e de Aristótles. Parte da filosofia de Platão foi absorvida por Agostinho de Hipona e incorporada ao cristianismo. A filosofia de Aristóteles foi reinterpretada por Tomás de Aquino e absorvida na sua teologia cristã. Os Reformadores Protestantes Lutero e Calvino, embora tenham rejeitado a inserção da filosofia de Aristóteles na doutrina de Cristo, endossaram alguns aspectos da filosofia platônica.
Quanto à filosofia de Sócrates, do qual Platão e Aristóteles foram discípulos, interpreto-a como a filosofia da busca. No caso, parte-se da revelação geral de que Deus existe e tem um plano para cada pessoa, mas cada pessoa deve fazer sua própria investigação, sempre buscando, batendo à porta e pedindo sabedoria. A busca do conhecimento e, em especial, a busca do autoconhecimento, seria o motor dessa filosofia socrática que, segundo posso avaliar, consiste no uso da razão para descobrir a verdade. E conforme foi dito: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. João 8:32".
Há bons exemplos de pessoas que chegaram a Cristo pelo uso da razão. Nesse tipo de via pode-se, num primeiro momento, até conluir que Jesus Cristo não é o melhor modelo de homem. Este foi o caso de Bertrand Russel, um homem inteligente de comportamento moral exemplar. Esse tipo de conclusão é reforçado por evidências de que coisas ruins têm sido perpetradas pelos supostos seguidores de Cristo ao longo do tempo, como guerras e injustiças diversas. Há, ainda, vendedores de ilusões que falam em nome de Cristo, como ilustra a música Pastor João, de Raul Seixas.
Contudo, Bertrand Russel tirou conclusões antes de completar suas pesquisas. Outros homens de grande capacidade intelectual foram mais longe, passando pela posição ateísta de Russel, porém superando-a. Os modelos clássicos de homens racionais que encontraram Cristo após intensa busca são, entre outros: Agostinho de Hipona, C. S. Lewis e G. K. Chesterton. Agostinho veio a tornar-se o Santo Agostinho da Igreja Católica Romana, tendo registrado sua conversão no livro Confissões, entre outros clássicos do pensamento filosófico ocidental. Seu clássico A Doutrina Cristã, sintetiza o que ele entendeu como sendo o cristianismo verdadeiro. Lewis descreveu sua experiência no livro Surpreendido pela Alegria, enquanto Chesterton registrou sua experiência no livro Ortodoxia.
Mas, há outras maneiras de chegar a Cristo além do uso intencional da razão: o amor e o sofrimento. Ao amar o próximo como a si mesmo, mesmo sendo ignorante quanto a Deus, o homem pode ser surpreendido pela alegria de saber que Deus o acolheu. Mas esse acolhimento pode ocorrer, por outro lado, por um pedido de socorro verdadeiro e disposto à conversão de vida, após ser esmagado por sofrimento indizível. Os que amam, e os que sofrem, estão em condições de buscá-Lo, ou de serem buscados por Ele. Jesus Cristo mesmo ilustrou essas possibilidades.
4. CONCLUSÃO
Em síntese, entre todas as alternativas concorrentes, Jesus Cristo é aquela que traz a maior esperança e que pode dar mais significado à vida. Algumas entre as alternativas apresentadas nem são concorrentes, pois podem conviver lado a lado com a mensagem de Cristo. Uma boa filosofia pagã, por exemplo, que considera as virtudes como necessárias à vida saudável, pode ser absorvida, pois é um pressuposto que os que forem libertos por Cristo terão uma vida virtuosa, embora sua salvação não dependa de suas virtudes.
Por outro lado, o Nome de Jesus passou a ser vendido no mercado como um produto capaz de render altos dividendos, seja em dinheiro, seja em milagres. Certo negociante da fé chegou a afirmar que "Deus é um produto que quase se vende sozinho". Porém, não importa o quanto o Seu Nome seja usado como álibi por pessoas desonestas e exploradoras das carências humanas. Tudo isso já fora previsto por Ele. Tais usurpadores são como o joio que cresce com o trigo, e que será separado na colheita. Veja uma análise crítica dos marketeiros usurpadores do poder de Deus diante do povo ignorante neste vídeo.
Uma grande esperança permanece nas Palavras de Cristo, que se colocou como intermediário entre o homem e sua verdadeira origem e destino. Ele ensinou a orar ao Pai em Mateus 6:9-13, e ainda ressaltou em Lucas 11:9, em relação ao Pai: "E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á". De fato, mesmo sendo enganados por usurpadores do poder de Deus, muitas pessoas ingênuas de boa fé têm encontrado a paz que supera todo entendimento. Neste caso, o problema será dos usurpadores, mas é sempre bom identificá-los e abandoná-los.
Contudo, o ponto central a considerar é que o Evangelho de Jesus Cristo não é uma teoria a ser recitada e defendida. É preciso, como Ele mesmo disse, praticá-lo no dia-a-dia, embora, pela condição inerente ao homem, essa prática tenha altos e baixos. Não há outro meio de chegar a Deus. Algumas ações que são compatíveis com esse compromisso:
Cuidar dos órfãos e das viúva nas suas tribulações;
Fazer aos outros aquilo que gostaríamos que eles nos fizessem;
Cumprir os deveres para com o Estado (dar a César o que é de César);
Produzir o máximo, consumir o mínimo, e distribuir o máximo aos necessitados, mas, sobretudo, ajudando-os a tornarem-se autossustentáveis;
Ajudar o próximo a encontrar a Verdade que liberta;
Buscar a Deus individualmente ou em grupo, no silêncio ou na exaltação pública, de acordo com o temperamento de cada um, mas tomando o cuidado de que não preveleça a virtude das aparências, isto é, o farisaísmo.
Enfim, produzir os frutos dos desdobramentos da missão de "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo".
domingo, 12 de dezembro de 2010
Como Ler a Bíblia?
O dilema
RESUMO
Argumento que, ao ler a Bíblia, é preciso ter em mente um objetivo claro. Remeto o leitor a documentos escritos por especialistas, católicos e protestantes, que demonstram o quanto é arriscado colocar-se como examinador crítico ou intérprete da mesma. Ressalto que, naquilo que é essencial, ela é clara o suficiente para ser lida por todos; entretanto, naquilo que pode gerar interpretações passíveis de discordâncias doutrinárias, o leitor pode meter-se em conflitos hermenêuticos inúteis e perigosos que se têm arrastado por séculos.
1. INTRODUÇÃO
De acordo com a minha experiência de leigo, penso que se pode ler a Bíblia: 1. para alimentar-se daquele seu conteúdo que dispensa interpretação; 2. para confirmar ou negar afirmações de pessoas que a citam; 3. como especulador; 4. como intérprete.
Na modalidade 1, em que se busca alimento espiritual, a Bíblia pode ser lida por todos que saibam ler. Entretanto, é preciso que leitores mais experientes indiquem, paras os novatos, as passagens mais apropriadas para essa finalidade. Veja, por exemplo, o endereço http://cristianismocriticopratico.blogspot.com/2010/11/onde-procurar-na-biblia.html , onde postei indicações tiradas de fonte segura. Um leitor um pouco mais curioso deveria ler alguma Bílbia de Estudos da corrente interpretativa de sua preferência.
Quanto à modalidade 2, checar citações, a leitura é simples, e pode ser realizada sem problemas. Contudo, quando as citações estão no contexto doutrinário, é preciso interpretar, pois as mesmas citações podem ser evocadas para reforçar ou negar doutrinas incompatíveis entre si. Quando isso ocorre, cai-se na modalidade 4. Contendas sem fim podem resultar dessa postura. A esse respeito, reflitamos sobre Tito 3:9, que aconselha: "Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs."
A leitura com a finalidade 3, de natureza especulativa, é feita geralmente por ateus militantes, ou por pensadores independentes que querem confrontar as interpretações que da Bíblia fazem os religiosos. Leitores com tendências neutras poderiam fazer também esse tipo de leitura, seja para extrair dela elementos da sabedoria universal, seja para analisar os textos da Bíblia ou o discurso dos religiosos que a interpretam. Geralmente esse tipo de leitura alimenta o agnosticismo e o ateísmo, mas pode, eventualmente, iluminar o caminho de alguns escolhidos que se encontravam perdidos.
Na modalidade de leitura número 4 busca-se interpretar a Bíblia. E é nesse momento que se deve tomar muito cuidado. Vejamos alguns documentos que tratam desse nível de leitura, dos quais darei os endereços, mas sobre os quais não farei comentários. Caso o leitor se interesse, poderá fazer a leitura dos textos indicados e tirar suas próprias conclusões, assim como tirei as minhas.
De uma maneira geral, todos os leitores podem tirar proveito se aprenderem a ler como pesquisadores. Para isso, leia aqui o resumo que fiz do livro Como Ler um Livro, de Adler e Van Doren. Embora os documentos que serão apresentados a seguir demonstrem o quanto é perigoso interpretar a Bíblia em sentido rigoroso para dar suporte a doutrinas, há recomendações de bom senso que são compatíveis com a arte de ler qualquer texto, e que são reconhecidas como válidas por todas a linhas interpretativas.
Algumas dessas recomendações estão no livro A Doutrina Cristã, de Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho da Igreja Católica Romana: quando houver várias passagens sobre o mesmo tema, analisar todas elas, compará-las e adotar a mais simples e clara, sempre partindo do sentido literal; quando persistir possíveis contradições, não fazer opções, mas pedir esclarecimentos a especialistas; se persistir a dúvida, suspender o julgamento e reconhecer a finitude humana diante da infinitude de Deus.
A seguir serão apresentados os endereços eletrônicos de importantes documentos de especialistas sobre a interpretação da Bíblia. Não tenha pressa de lê-los; mas, se o fizer, leia-os com bastante cuidado. Em seguida, pesquise por contra própria outros documentos, sempre prestando atenção à credibilidade dos autores diante de sua linha interpretativa.
2. A CORRENTE CATÓLICA ROMANA
2.1 - A Posição Oficial da Igreja Católica
Quanto à posição da Igreja Católica, leia aqui, ou vá ao seguinte endereço:http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#top
2.2. O Posicionamento Crítico de um Católico Romano Dito Tradicionalista Contra o Livre Exame Proposto pelos Protestantes
Leia aqui.
3. A CORRENTE PROTESTANTE
3.1 - A Posição de Lutero
As sugestões de Lutero podem ser encontradas no seu livro Da Liberdade do Cristão. Ele, que era professor de Bíblia credenciado pela Igreja Católica, aconselhava que a leitura deve iniciar-se pelos textos que ressaltam a espiritualidade, tais como: João, 1 Pedro e Romanos. Ele procurou, ainda, indicar o que se poderia encontrar na Bíblia como um todo. Lutero defendia o livre exame, mas não a livre interpretação. Ele aconselhou a não se fixar nos textos que descrevem muitos milagres, pois isso poderia desviar a atenção do leitor. Em última análise, ele próprio interpretou a Bíblia de forma diferente da Igreja Católica, tendo sido a principal força isolada a romper o dique do catolicismo.
3.2 - A Posição de Calvino
A posição de Calvino foi defendida na sua famosa obra Institutas da Religião Cristã. Assim como Lutero, ele defendeu que as passagens da Bíblia que são úteis para compreender as condições da salvação são perfeitamente claras, e podem ser lidas por qualquer um. Ele, embora tenha sido conhecido por sua coragem em acatar todos os pontos difíceis da Bíblia, como a predestinação, ressaltou que não se deve insistir muito em elucidar o que Deus ocultou. Nas Institutas ele procurou ressaltar os pontos que julgou serem os principais para se compreender a Bíblia e a doutrina de Cristo.
3.3 - Um Exemplo de Abordagem Acadêmica do Tema por um Calvinista
3.3.1 - Visão geral do tema
Leia aqui, ou vá ao seguinte endereço: http://www.monergismo.com/textos/hermeneuticas/hermA_02.pdf
3.3.2 - Questionamento do método Histórico-Crítico
Leia aqui, ou vá ao seguinte endereço: http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_X__2005__1/augustus.pdf
4. CONCLUSÃO
A julgar pelos textos apresentados, tanto a corrente católica como a corrente protestante age com responsabilidade na interpretação da Bíblia. Nenhuma delas propõe a livre interpretação, embora até mesmo os mais renomados especialistas possam contradizer-se uns aos outros numa mesma corrente e, em especial, quando são de correntes diferentes.
Quanto ao livre exame protestante, o pressuposto é que a Bíblia, embora não seja clara em todos os pontos, é suficientemente clara nos aspectos essenciais à salvação, e pode ser lida por qualquer pessoa alfabetizada. Para isso, os protestantes estimularam, desde o início, a educação universal e de qualidade para todos. Algumas entre as universidades atualmente mais respeitadas, como Harvard, por exemplo, foram criadas por eles com a missão inicial de preparar bons teólogos.
Para exames críticos de posições que se dizem bíblicas, o leitor deve ser especialmente qualificado. No caso do protestantismo histórico, conforme compreendo, esse livre exame visa apenas a identificar erros grosseiros de interpretação perpetrados por falsos profetas e/ou analfabetos funcionais. Contudo, de acordo com a minha experiência, os livre-examinadores nem sempre têm o preparo adequado e, de fato, colocam-se como intérpretes desastrados da Bíblia.
Assim, penso com o meu presumido bom senso: - O leigo não deve ler a Bíblia para interpretá-la, mas apenas para retirar dela o alimento espiritual de que necessita. Ao ler textos que não consegue compreender, ele deve partir do consenso daqueles que estudaram o tema com afinco e foram considerados competentes para fazê-lo, desde que suas interpretações tenham resistido às mais competentes críticas. Para isso existem as Bíblias de Estudo.
Entretanto, mesmo o leigo pode capacitar-se de tal maneira que se veja na obrigação de discordar totalmente de alguma intepretação tida por correta. Neste caso, ele deve limitar-se a instruir-se, e não colocar-se como instrutor alheio. Se, por outro lado, dispõe-se a difundir sua própria interpretação, que antes se submeta ao debate acadêmico rigoroso. Para tal é preciso estudar filosofia para entender teologia, além de conhecer aramáico, grego, latim, entre outros temas. Se não tiver esses pre-requisisitos, que se cale quanto à discussão dos temas polêmicos que se arrastam pela história da Igreja.
Assim, nunca é demais lembrar Deuteronônio 29:29: "As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei." Acatemos, ainda, a sabedoria expressa em 1 Coríntios, 13:12 "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido."
Em síntese, é preciso ter coragem para dizer Eu Não Sei. A insistência em tentar conhecer o que está oculto na letra da Bíblia pode ser o caminho mais rápido para mergulharmos no abismo sem fundo do desastre espiritual. Necessitamos, pois, praticar o que nela está manifesto antes de desejar elucidar o que está oculto.
RESUMO
Argumento que, ao ler a Bíblia, é preciso ter em mente um objetivo claro. Remeto o leitor a documentos escritos por especialistas, católicos e protestantes, que demonstram o quanto é arriscado colocar-se como examinador crítico ou intérprete da mesma. Ressalto que, naquilo que é essencial, ela é clara o suficiente para ser lida por todos; entretanto, naquilo que pode gerar interpretações passíveis de discordâncias doutrinárias, o leitor pode meter-se em conflitos hermenêuticos inúteis e perigosos que se têm arrastado por séculos.
1. INTRODUÇÃO
De acordo com a minha experiência de leigo, penso que se pode ler a Bíblia: 1. para alimentar-se daquele seu conteúdo que dispensa interpretação; 2. para confirmar ou negar afirmações de pessoas que a citam; 3. como especulador; 4. como intérprete.
Na modalidade 1, em que se busca alimento espiritual, a Bíblia pode ser lida por todos que saibam ler. Entretanto, é preciso que leitores mais experientes indiquem, paras os novatos, as passagens mais apropriadas para essa finalidade. Veja, por exemplo, o endereço http://cristianismocriticopratico.blogspot.com/2010/11/onde-procurar-na-biblia.html , onde postei indicações tiradas de fonte segura. Um leitor um pouco mais curioso deveria ler alguma Bílbia de Estudos da corrente interpretativa de sua preferência.
Quanto à modalidade 2, checar citações, a leitura é simples, e pode ser realizada sem problemas. Contudo, quando as citações estão no contexto doutrinário, é preciso interpretar, pois as mesmas citações podem ser evocadas para reforçar ou negar doutrinas incompatíveis entre si. Quando isso ocorre, cai-se na modalidade 4. Contendas sem fim podem resultar dessa postura. A esse respeito, reflitamos sobre Tito 3:9, que aconselha: "Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs."
A leitura com a finalidade 3, de natureza especulativa, é feita geralmente por ateus militantes, ou por pensadores independentes que querem confrontar as interpretações que da Bíblia fazem os religiosos. Leitores com tendências neutras poderiam fazer também esse tipo de leitura, seja para extrair dela elementos da sabedoria universal, seja para analisar os textos da Bíblia ou o discurso dos religiosos que a interpretam. Geralmente esse tipo de leitura alimenta o agnosticismo e o ateísmo, mas pode, eventualmente, iluminar o caminho de alguns escolhidos que se encontravam perdidos.
Na modalidade de leitura número 4 busca-se interpretar a Bíblia. E é nesse momento que se deve tomar muito cuidado. Vejamos alguns documentos que tratam desse nível de leitura, dos quais darei os endereços, mas sobre os quais não farei comentários. Caso o leitor se interesse, poderá fazer a leitura dos textos indicados e tirar suas próprias conclusões, assim como tirei as minhas.
De uma maneira geral, todos os leitores podem tirar proveito se aprenderem a ler como pesquisadores. Para isso, leia aqui o resumo que fiz do livro Como Ler um Livro, de Adler e Van Doren. Embora os documentos que serão apresentados a seguir demonstrem o quanto é perigoso interpretar a Bíblia em sentido rigoroso para dar suporte a doutrinas, há recomendações de bom senso que são compatíveis com a arte de ler qualquer texto, e que são reconhecidas como válidas por todas a linhas interpretativas.
Algumas dessas recomendações estão no livro A Doutrina Cristã, de Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho da Igreja Católica Romana: quando houver várias passagens sobre o mesmo tema, analisar todas elas, compará-las e adotar a mais simples e clara, sempre partindo do sentido literal; quando persistir possíveis contradições, não fazer opções, mas pedir esclarecimentos a especialistas; se persistir a dúvida, suspender o julgamento e reconhecer a finitude humana diante da infinitude de Deus.
A seguir serão apresentados os endereços eletrônicos de importantes documentos de especialistas sobre a interpretação da Bíblia. Não tenha pressa de lê-los; mas, se o fizer, leia-os com bastante cuidado. Em seguida, pesquise por contra própria outros documentos, sempre prestando atenção à credibilidade dos autores diante de sua linha interpretativa.
2. A CORRENTE CATÓLICA ROMANA
2.1 - A Posição Oficial da Igreja Católica
Quanto à posição da Igreja Católica, leia aqui, ou vá ao seguinte endereço:http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html#top
2.2. O Posicionamento Crítico de um Católico Romano Dito Tradicionalista Contra o Livre Exame Proposto pelos Protestantes
Leia aqui.
3. A CORRENTE PROTESTANTE
3.1 - A Posição de Lutero
As sugestões de Lutero podem ser encontradas no seu livro Da Liberdade do Cristão. Ele, que era professor de Bíblia credenciado pela Igreja Católica, aconselhava que a leitura deve iniciar-se pelos textos que ressaltam a espiritualidade, tais como: João, 1 Pedro e Romanos. Ele procurou, ainda, indicar o que se poderia encontrar na Bíblia como um todo. Lutero defendia o livre exame, mas não a livre interpretação. Ele aconselhou a não se fixar nos textos que descrevem muitos milagres, pois isso poderia desviar a atenção do leitor. Em última análise, ele próprio interpretou a Bíblia de forma diferente da Igreja Católica, tendo sido a principal força isolada a romper o dique do catolicismo.
3.2 - A Posição de Calvino
A posição de Calvino foi defendida na sua famosa obra Institutas da Religião Cristã. Assim como Lutero, ele defendeu que as passagens da Bíblia que são úteis para compreender as condições da salvação são perfeitamente claras, e podem ser lidas por qualquer um. Ele, embora tenha sido conhecido por sua coragem em acatar todos os pontos difíceis da Bíblia, como a predestinação, ressaltou que não se deve insistir muito em elucidar o que Deus ocultou. Nas Institutas ele procurou ressaltar os pontos que julgou serem os principais para se compreender a Bíblia e a doutrina de Cristo.
3.3 - Um Exemplo de Abordagem Acadêmica do Tema por um Calvinista
3.3.1 - Visão geral do tema
Leia aqui, ou vá ao seguinte endereço: http://www.monergismo.com/textos/hermeneuticas/hermA_02.pdf
3.3.2 - Questionamento do método Histórico-Crítico
Leia aqui, ou vá ao seguinte endereço: http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_X__2005__1/augustus.pdf
4. CONCLUSÃO
A julgar pelos textos apresentados, tanto a corrente católica como a corrente protestante age com responsabilidade na interpretação da Bíblia. Nenhuma delas propõe a livre interpretação, embora até mesmo os mais renomados especialistas possam contradizer-se uns aos outros numa mesma corrente e, em especial, quando são de correntes diferentes.
Quanto ao livre exame protestante, o pressuposto é que a Bíblia, embora não seja clara em todos os pontos, é suficientemente clara nos aspectos essenciais à salvação, e pode ser lida por qualquer pessoa alfabetizada. Para isso, os protestantes estimularam, desde o início, a educação universal e de qualidade para todos. Algumas entre as universidades atualmente mais respeitadas, como Harvard, por exemplo, foram criadas por eles com a missão inicial de preparar bons teólogos.
Para exames críticos de posições que se dizem bíblicas, o leitor deve ser especialmente qualificado. No caso do protestantismo histórico, conforme compreendo, esse livre exame visa apenas a identificar erros grosseiros de interpretação perpetrados por falsos profetas e/ou analfabetos funcionais. Contudo, de acordo com a minha experiência, os livre-examinadores nem sempre têm o preparo adequado e, de fato, colocam-se como intérpretes desastrados da Bíblia.
Assim, penso com o meu presumido bom senso: - O leigo não deve ler a Bíblia para interpretá-la, mas apenas para retirar dela o alimento espiritual de que necessita. Ao ler textos que não consegue compreender, ele deve partir do consenso daqueles que estudaram o tema com afinco e foram considerados competentes para fazê-lo, desde que suas interpretações tenham resistido às mais competentes críticas. Para isso existem as Bíblias de Estudo.
Entretanto, mesmo o leigo pode capacitar-se de tal maneira que se veja na obrigação de discordar totalmente de alguma intepretação tida por correta. Neste caso, ele deve limitar-se a instruir-se, e não colocar-se como instrutor alheio. Se, por outro lado, dispõe-se a difundir sua própria interpretação, que antes se submeta ao debate acadêmico rigoroso. Para tal é preciso estudar filosofia para entender teologia, além de conhecer aramáico, grego, latim, entre outros temas. Se não tiver esses pre-requisisitos, que se cale quanto à discussão dos temas polêmicos que se arrastam pela história da Igreja.
Assim, nunca é demais lembrar Deuteronônio 29:29: "As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei." Acatemos, ainda, a sabedoria expressa em 1 Coríntios, 13:12 "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido."
Em síntese, é preciso ter coragem para dizer Eu Não Sei. A insistência em tentar conhecer o que está oculto na letra da Bíblia pode ser o caminho mais rápido para mergulharmos no abismo sem fundo do desastre espiritual. Necessitamos, pois, praticar o que nela está manifesto antes de desejar elucidar o que está oculto.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
A Natureza Humana
Uma reflexão para o estabelecimento de um Projeto Didático-Pedagógico Cristão
RESUMO
A presente reflexão refere-se ao conhecimento do homem e sua natureza como condição prévia para o estabelecimento de um programa de educação e treinamento. Parto de uma visão geral, passível de aplicação pela educação secular, mas termino a reflexão ressaltando a necessidade de que a educação secular seja complementada por uma educação genuinamente cristã para aqueles que se consideram seguidores do Evangelho de Jesus Cristo. Apresento ideias que, eventualmente, poderão ser peneiradas para extrair uma ou outra de valor, como acontece quando se faz um "brainwriting".
1 INTRODUÇÃO
O homem não nasce pronto. Ele nasce com um campo potencial de possibilidades que podem ou não ser realizadas de acordo com as condições de sua existência. Sua formação como homem, de acordo com a visão do seu grupo de referência, necessita, entre outras coisas, de educação e treinamento.
No caso do cristianismo, essa formação é dada pela igreja - instituição cristã - a que o indivíduo se associa, involutaria ou voluntariamente. Uma adesão involuntária ocorre por nascimento, quando os pais encaminham os filhos segundo sua tradição. Eventualmente o caminho inicialmente seguido é mudado por opção consciente, ou por invisível ação do Espírito.
Este texto situa-se como uma extensão natural de três textos anteriores que escrevi para autoesclarecimento: 1) Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental; 2) Deus, a Bíblia e Seus Intérpretes e 3) Os Sistemas de Doutrinas Cristãos e Suas Verdades. Além desses três textos mais estruturados, fiz algumas reflexões avulsas sobre temas que julguei relevantes.
Tenho a impressão de que o Evangelho simples foi tornado complexo até o limite de sua quase perda de credibilidade. Defendo a volta às raízes, porém sob uma forma de pensar que torne o Evangelho significativo para a mentalidade científica reinante, ou que deveria reinar, nessa era do conhecimento. Para isso, reflitamos sobre o homem e sua natureza, pois é preciso conhecer o homem como sujeito a ser formado e, ao mesmo tempo, como o objeto da educação.
2. O HOMEM E SUA NATUREZA
2.1 - O Problema Geral
A experiência cotidiana permite-nos observar, no ser humano, um conjunto de características cuja intensidade varia de indivíduo para indivíduo. Entre essas características poderíamos citar, num extremo, aquelas que levam ao aperfeiçoamento do caráter; num outro extremo, poderíamos listar várias características que são típicas do comportamento destrutivo. Qualidades antagônicas podem manifestar-se, ocasionalmente, numa mesma pessoa, o que levou certo sábio a dizer que “tudo que é humano não me é estranho”.
No dia-a-dia, muitas pessoas sacrificam-se na fogueira da vaidade em busca de dinheiro, fama e poder, enquanto outras, como verdadeiros santos, sacrificam-se pelo próximo. Guerras são travadas em nome de Deus, da libertação de classes sociais, e em nome da supremacia de raças, com o sacrifício de milhões de vidas. Por outro lado, a inabilidade para o convívio diário com o outro cria ambientes tensos que geram sofrimentos desnecessários durante o encontro humano em tempos de paz. Esse quadro não é mudado automaticamente pela educação formal, uma vez que entre as pessoas mais agressivas e egoístas existem muitos doutores, enquanto a sabedoria pode ser encontrada entre pessoas analfabetas.
Diante desse quadro, o homem reflexivo é atormentado por perguntas que têm permanecido sem respostas satisfatórias ao longo dos séculos. O que é o ser humano, afinal? O que lhe é inerente ao nascer e o que lhe é transmissível pela educação? A seguir serão apresentadas, de forma sintética, algumas entre as mais influentes visões sobre a natureza humana.
2.2 - O Homem Segundo a Tradição
O antropólogo Fernando Schwarz , chefe de Cátedra na Escola de Antropologia de Paris, fez extensas revisões da literatura a respeito do fenômeno humano no campo do Sagrado. Suas pesquisas evidenciaram que, da antiga China à Grécia, da Sibéria ao mundo cristão, dos Maias pré-colombianos ao Egito dos faraós, o denominador comum de todas as Tradições é uma constituição esotérica do homem, fundada numa estrutura ternária do Universo.
A criação estaria dividida em três esferas que se interpenetram: o mundo material simbolizado pela Terra, o mundo espiritual simbolizado pelo Céu e o mundo intermediário simbolizado pela atmosfera, reunindo os dois precedentes, no qual vive o homem. Segundo essa visão o homem seria um ‘microcosmos’ ou ‘pequeno universo’, possuindo em si a mesma estrutura organizada do Universo.
Platão, assumindo essa visão, assim descreveu, no Timeu, a criação da alma humana: “o demiurgo formou primeiro a alma imortal (nous), isto é, a inteligência; após o que, os deuses subalternos, enquanto encerravam essa primeira alma num corpo físico (soma), formaram a alma mortal (psyché), composta da coragem e do desejo. Assim, em nome de sua união com o corpo, a alma se torna sujeita à morte; somente é imortal a alma inteligente, que é a alma na integridade de sua natureza divina”.
A essas três partes do homem corresponderiam quatro virtudes: sabedoria, coragem, temperança e justiça, que são as mesmas no indivíduo e no Estado. A sabedoria é a virtude da alma inteligente (nous), enquanto possui o conhecimento que lhe permite exercer o comando; a coragem é a virtude da alma intermediária (psyché), enquanto obedece às ordens da inteligência. A psyché deve ter uma segunda virtude: a temperança, que lhe permite dominar sua parte concupiscente. Já a justiça, tanto no indivíduo como no Estado, manifesta-se quando as diversas partes estão em acordo entre si, cada uma executando sua função própria, sendo esta o equivalente à saúde para o corpo (soma).
A partir da estruturação anterior, Platão imaginava que a educação, visando a um estado de harmonia e felicidade, deveria incluir a ginástica, a música e a filosofia, em relação, respectivamente, com os mundos físico, psicológico e espiritual. Platão tinha um enfoque teocentrista, ao contrário do enfoque antropocentrista do seu discípulo Aristóteles. Sua visão teocentrista admitia, porém, que o “o homem é um deus, mas disto já se esqueceu”.
A partir da aceitação de uma estrutura ternária do Universo e do homem, certas Escolas de Sabedoria do Oriente e do Ocidente desenvolveram vias de ação mais detalhadas a fim de compreender o fenômeno humano; assim, pode-se encontrar a estrutura ternária desdobrada em 5, 7 ou 9 elementos.
A Tradição judia reconhecia a estrutura ternária, com a alma vivente sendo resultante da união do corpo com a inspiração do Espírito. O Maia, como o Budista, reconhecia cinco elementos constitutivos do homem. A Índia e o Egito, sociedades tradicionais por excelência, referiam-se a uma chave setenária. A Grécia de Platão concebia uma estrutura ternária, reflexo direto da estrutura do Universo: soma ou parte física, psyché ou parte psicológica ligada à alma (psyché = alma) e nous, a parte espiritual do homem. O cristianismo retomou a visão ternária usando a nomenclatura espírito, alma e corpo, que São João inscreveu no seu Evangelho na forma de verbum (mundo espiritual), lux (luz, estado físico) e vita (mundo corporal).
Na visão cristã, o homem é um ser criado à imagem e semelhança de Deus, tendo usado o seu livre arbítrio para corromper-se e afastar-se do seu estado de perfeição. Sua redenção poderia ser conseguida unicamente pela fé, mediante a graça salvadora do filho de Deus seu criador. A ética cristã valoriza a pobreza voluntária e o desapego à riqueza, que não é incompatível com a riqueza material lícita, ou seja, aquela que não se apodera do homem e nem o faça esquecer a sua realidade de membro de uma comunidade fraterna, submetida à lei do amor.
Na visão budista, o homem seria naturalmente imperfeito, porém, perfectível a partir do esforço para compreender e viver segundo as quatro nobres verdades: i) a insatisfação faz parte da realidade humana; ii) os anseios e os desejos são a fonte da insatisfação; iii) a extinção do desejo leva à extinção do sofrimento e iv) somente o caminho intermediário, ou moderação, pode eliminar os desejos e a insatisfação. Na perspectiva budista, enquanto não atingir a perfeição, o ser humano participaria de um ciclo de encarnação/desencarnação, para redimir-se de suas faltas passadas. A solução final estaria na busca do aperfeiçoamento contínuo da personalidade e de tudo que esteja ao alcance da ação humana.
Em oposição à visão da Tradição, geralmente criacionista, os evolucionistas vêm no ser humano apenas um dos produtos da natureza. Sua evolução teria acontecido nos planos biológico e cultural, com o primeiro plano tendo realizado praticamente todo o seu potencial. Na atualidade, a evolução humana dar-se-ia principalmente no plano cultural, com uma grande expectativa quanto à possibilidade de recriação humana pela manipulação genética. Maturana e Varela, abordando o homem a partir de uma visão sistêmica da biologia, enfatizam que a construção do ser humano em sociedade dá-se pelo compartilhamento de linguagem e emoção, ressaltando a importância do amor como elemento fundamental para se estabelecerem comunidades autopoiéticas, isto é, que se autoconstróem.
2.3 - Abordagem Marxista versus Freudiana
Vázquez afirma que: “Para Marx, o homem real é uma unidade indissolúvel, um ser espiritual e sensível, natural e propriamente humano, teórico e prático, objetivo e subjetivo. O homem é, antes de tudo, praxis: isto é, define-se como um ser produtor, transformador, criador; mediante o seu trabalho, transforma a natureza externa, nela se plasma e, ao mesmo tempo, cria um mundo à sua medida, isto é, à medida de sua natureza humana. (...). Ele seria, ainda, um ser social e histórico.”
Como ser social e histórico, o homem não teria uma natureza intrínseca, boa ou má, mas seria um produto do sistema social, embora esteja ao seu alcance reconstruir esse sistema. A propriedade privada dos meios de produção seria o principal empecilho à realização da essência humana, levando à escravização de toda a classe trabalhadora, ainda que sob aparência de liberdade. Marx e Engels concluíram que a história segue uma lei inexorável em direção a uma sociedade verdadeiramente humana, sem explorados e exploradores, que atingiria o seu clímax no comunismo. Nesse sistema, cujo advento poderia ser acelerado pelo socialismo científico – tese que não se confirmou nos experimentos até então realizados -, o homem superaria o reino da necessidade e manifestaria sua verdadeira essência de solidariedade e liberdade criadora.
A psicologia sócio-histórica, criada por Vygostky, assim expressa a sua visão do desenvolvimento humano: “a cultura e a tecnologia fortalecem teleologica e causalmente a consciência. Assim sendo, a consciência incorpora o caráter de suas mediações culturais e tecnológicas formativas, e sua forma, conteúdo e nível de desenvolvimento refletem as mediações culturais e tecnológicas. Essa consciência social medeia o impacto dos estímulos. As emoções, as sensações, as necessidades, a percepção e a recordação são partes integrantes da consciência social e estão impregnados de seu caráter social consciente. Finalmente, os indivíduos atuam sobre o mundo do estímulo pela intermediação da tecnologia e das instituições sociais.” Na opinião do biólogo Schneirla , adepto da psicologia sócio-histórica “é válido falar de uma ‘natureza do verme’, de uma ‘natureza da formiga’ ou, até mesmo, de uma ‘natureza do pássaro’, mas não de uma ‘natureza humana’, porque o homem pode ter toda e qualquer natureza que permitam as condições de sua criação e de sua situação social”.
Contrapondo-se à visão marxista, embora sem a intenção de combate político, Freud, criador da psicanálise, interpretou o homem a partir do seu aparelho psíquico, tentando esclarecer sua natureza fundamental, herdada e adquirida. Ele alertou que o seu modelo era imperfeito, apesar de útil, devendo ser modificado quando se conhecesse o suficiente sobre biologia. Alertou, ainda, para o fato de sua análise referir-se ao indivíduo na sociedade, e não como ser existente por si mesmo. Sua psicologia seria, portanto, também uma sociologia. Seu mapa da alma destaca três reinos: superego, ego e id, englobando cinco campos.
O superego eqüivale ao educador introjetado. Identifica-se com a sociedade normativa. O ego consciente está a serviço da percepção e da ação, em relação direta com o mundo externo. O pré-consciente é a outra parte do ego, contendo as informações inconscientes não reprimidas, e o campo neutral-vital, representando as necessidades vitais fisiologicamente determinadas. Estas, em última análise, representariam o principal impulso para a ação, no homem e nos animais.
Para Freud, os interesses individuais estão, quase sempre, em colisão com os interesses da civilização. Desta forma, toda evolução da civilização implicaria a imposição de restrições a que o indivíduo obtenha a plenitude do prazer instintual egoísta. Essa repressão, por outro lado, levaria o indivíduo a um estado de neurose que, no limite, se transformaria em doença permanente. As formas de educar para a civilização decorreriam da combinação entre: coerção, liderança pelo exemplo, trabalho, arte, esportes e conhecimento. Embora ateu, ele ainda destacou o grande papel da religião para a civilização.
Tendo em vista as conclusões a que chegou sobre o fenômeno humano, Freud manifestou total descrença no futuro do marxismo, atribuindo-lhe o status de uma “insustentável ilusão”, por basear-se, segundo ele, numa teoria errônea sobre a natureza humana. Para ele, os impulsos biológicos contraditórios que movem o homem não seriam eliminados junto com a extinção da propriedade privada, embora a eliminação da desigualdade econômica pudesse suprimir uma das principais causas de injustiça. Por outro lado, os marxistas caracterizaram a psicanálise como “psicologia do homem ocioso”, pois ela teria esquecido que os homens se definem pelo seu trabalho, por sua relação com o mundo objetivo .
Embora Marx e Freud pareçam irreconciliáveis, com o primeiro justificando o socialismo e o segundo sendo evocado para justificar o capitalismo como adequado à natureza humana, Fromm procurou demonstrar que o terreno comum entre os dois foi o esforço para romper as cadeias da ilusão e dar ao homem uma visão da realidade, usando para isso três elementos principais: a dúvida, o poder da verdade e o humanismo. Fromm ilustra a semelhança entre o núcleo central das idéias de Marx e Freud por meio de algumas citações dos mesmos.
De Marx ele destaca: “As exigências de abandonar as ilusões sobre sua condição é a exigência de abandonar a uma condição que necessita de ilusões.” “A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva.”
Quanto a Freud, Fromm destacou: “Os homens não podem continuar sendo sempre crianças; devem, por fim, enfrentar a vida hostil. A isso podemos chamar de educação para a realidade.” “Não, nossa ciência não é uma ilusão. Mas seria ilusão, isso sim, supor que possamos encontrar noutra parte aquilo que a ciência não nos pode dar.” “Onde houver Id, haverá Ego.”
Fromm defendeu que, para compreender o homem, é preciso partir de suas necessidades, conforme resultam das condições de sua existência. Ele afirmou, com base em ampla experiência clínica e estudos, que o homem se defronta com algumas opções de cujo equilíbrio depende a sua saúde mental: a) relacionar-se com o outro ou cultivar o narcisismo; b) evoluir pela liberação de suas tendências criadoras ou involuir pela vazão de suas tendências destrutivas; c) assumir a fraternidade ou praticar o incesto; d) optar pela individualidade ou pela conformidade gregária; e) submeter-se à razão ou agir de forma irracional. A saúde mental, em suma, dependeria das condições de existência, e o conceito seria o mesmo para os homens de todas as épocas: “A saúde mental se caracteriza pela capacidade de amar e criar, pela libertação dos vínculos incestuosos com o clã e o solo, por uma sensação de identidade baseada no sentimento de si mesmo como o sujeito e o agente das capacidades próprias, pela captação da realidade interior e exterior, isto é, pelo desenvolvimento da objetividade e da razão.”
2.4 - A Síntese de Maslow
Entre as principais teorias da personalidade, selecionadas por Fadiman e Frager , será destacada a tentativa de síntese realizada pelo psicólogo humanista Abraham Maslow, por sua grande influência no ocidente e no Japão do pós-Guerra. Sua postura otimista pode ser resumida em suas próprias palavras: “Para simplificar a questão, é como se Freud nos tivesse fornecido a metade doente da Psicologia e nós devêssemos preencher a outra metade sadia.”
Maslow pesquisou alguns modelos de seres humanos sadios que poderiam ser tomados como exemplos do que, potencialmente, os homens poderiam se tornar. As pessoas que escolheu para estudar estavam relativamente livres de neuroses ou de problemas pessoais maiores, usavam da melhor maneira possível os seus talentos, capacidades e outras forças. Ele as chamou de “autoatualizadoras”, significando que elas estavam em permanente processo de crescimento, fazendo realizar os seus potenciais.
Ele enumerou as seguintes características dessas pessoas:
• Percepção mais eficiente da realidade e relações mais satisfatórias com ela;
• Aceitação (de si, dos outros e da natureza);
• Espontaneidade, simplicidade e naturalidade;
• Concentração no problema, em oposição ao estar concentrado no ego;
• Desprendimento e necessidade de privacidade;
• Autonomia em relação à cultura e ao meio ambiente;
• Pureza permanente de apreciação;
• Experiências místicas e culminantes;
• Sentimento de parentesco com outros;
• Relações pessoais mais profundas e intensas;
• Caráter democrático;
• Discriminação entre os meio e os fins, entre o bem e o mal;
• Senso de humor filosófico e não hostil;
• Criatividade autoatualizadora;
• Resistência à aculturação: a transcendência de qualquer cultura específica.
Não se pode perder de vista que o próprio Maslow concluiu que não existem mais do que 2% de pessoas autoatualizadoras. Quando tentou aplicar suas idéias à administração da fábrica de um parente, descobriu a diferença entre teoria e prática, tendo concluído que o desenvolvimento de altas expectativas quanto às pessoas chega a ser cruel para com aquelas que não podem corresponder à altura. Em verdade, a única maneira racional e justa de lidar com as pessoas seria permitir que os seus potenciais sejam atualizados de forma a fluir, sem ansiedade ou tédio, de acordo com as provas científicas mais recentes obtidas por Csikszentmihalyi .
Uma das mais citadas contribuições de Maslow é a sua hierarquia das necessidades humanas. Para ele a neurose e o desajustamento psicológico são “doenças de carência’, isto é, causadas pela privação de necessidades básicas. As necessidades por ele enumeradas manifestam-se simultaneamente nas pessoas, porém, com intensidades diferentes, exigindo satisfação de acordo com a demanda. Sua hierarquia de necessidades é a seguinte:
• Necessidades fisiológicas (fome, sono, etc.);
• Necessidades de segurança (estabilidade, ordem);
• Necessidades sociais (família, amizade);
• Necessidades de estima (auto-respeito, aprovação);
• Necessidades de autoatualização (desenvolvimento de capacidades).
Maslow chamou a atenção para o fato de que quando um organismo, animal ou humano, não está com fome, dor ou medo, novas motivações emergem, tais como a curiosidade e a alegria. Sob essas condições o organismo superaria a motivação de deficiência, orientada para fugir do sofrimento, e entraria num estado de motivação do ser.
Os seres humanos entram em atividade para satisfazer suas necessidades. Para obter a sua cooperação é preciso dar-lhes a esperança, alimentada por fatos e dados concretos, de que o esforço inteligente é a única forma de satisfazer tais necessidades, no presente e no futuro. As organizações mais avançadas, por exemplo, não se contentam em satisfazer as necessidades materiais e sociais dos seus colaboradores, acenando para a realização de uma missão nobre, de valor para a nação e para a humanidade. Veja-se, por exemplo, ainda que pareça falso, a declararão da missão da empresa HP: “Inovar para o bem da humanidade”. Veja-se, também, o ponto de vista do empresário Matsushita, mais adiante.
Pesquisando o que havia em comum sobre os motivos que levam os homens à ação entre vários autores da mesma linha de Maslow, a que deu o nome de psicologia perceptiva, Saint-Arnaud identificou três níveis de necessidades que geram os comportamentos humanos: as necessidades fundamentais, as necessidades estruturantes e as necessidades situacionais. A necessidade fundamental seria um elemento de atualização que manifesta uma exigência inata do organismo, exigência que não pode deixar de ser satisfeita sem graves conseqüências para o desenvolvimento do organismo. São elas: as necessidades físicas (ou biológicas), incluindo comer, dormir etc. e as necessidades psicológicas: amar e ser amado, produzir e compreender. A necessidade estruturante seria um aspecto da estrutura motivacional de natureza sócio-cultural, como os hábitos de vida que são desenvolvidos em função da tradição: três refeições, oito horas de trabalho, religião, ciência, leitura etc.. A necessidade situacional permite expressar as necessidades fundamental e estruturante num dado momento qualquer: estou com fome, estou com sono, vou rezar, quero conversar com Sílvia etc.. O desenvolvimento humano sadio ocorreria, assim, quando o ambiente fornecer os ingredientes de que o organismo necessita para desenvolver-se normalmente, tendo em vista a satisfação de suas necessidades.
À psicologia humanista, da qual Maslow foi o principal expoente, contrapôs-se a psicologia comportamentalista de Skinner . Enquanto os humanistas acreditavam numa motivação intrínseca, como o trabalho por amor ao trabalho, em ambiente sadio, Skinner tomou como hipótese forte o condicionamento operante, isto é, a reação a estímulos associados a recompensa ou punição. Enquanto a visão humanista parece mais nobre, sendo evocada sem receios, a visão de Skinner, embora nem sempre explicitada, e nem sempre julgada à altura da dignidade humana, incorporou-se ao dia-a-dia da educação e das organizações humanas em geral. Recompensar os bons resultados e, com alguma concessão, deixar de punir os maus resultados, tem sido a prática corrente no trato com as pessoas visando à sua capacitação e realização dos seus potenciais.
2.5 - O Ponto de Vista de um Empresário-Filósofo
Os empresários, como quaisquer outros seres humanos, não estão obrigados a agir somente por motivos egoístas, embora geralmente sejam acusados de fazê-lo. Platão, por exemplo, julgou que as pessoas ambiciosas tinham na indústria e no comércio a sua atividade natural. Smith , considerado um dos pais da economia, disse, de certos empresários, que eles constituem “uma classe de homens cujo interesse nunca é igual ao do público, que têm em geral o interesse de enganar e até oprimir o público, e que, por isso, em muitas ocasiões, têm efetivamente enganado e oprimido o público.”
Konosuke Matsushita, empresário-filósofo japonês, representou uma exceção explícita a esse julgamento depreciativo, tendo dedicado parte de sua vida à reflexão sobre a natureza humana. Após entrar em contato com a literatura sobre o tema, de caráter geralmente pessimista, ele concluiu que sua experiência colocava por terra todas as premissas negativas sobre o ser humano. Argumentou que o ser humano foi capaz, ao longo da história, de inventar coisas maravilhosas para melhorar a vida na Terra. Ponderou que o progresso da civilização só foi possível graças à cooperação e ao trabalho incansável de muitas pessoas que, em alguns casos, nem mesmo chegaram a usufruir dos benefícios do seu trabalho. Como poderiam essas pessoas ser classificadas como más?
A experiência de Matsushita foi notável, principalmente por ter demonstrado que homens simples, sem instrução, quando incentivados, desafiados e apoiados, podem realizar feitos surpreendentes. Ele conseguiu que muitos dos seus empregados, simples agricultores analfabetos, se tornassem inventores, espelhando-se no autodidata americano Thomas Edison.
Seu segredo, segundo ele próprio, foi criar uma missão nobre e compartilhá-la com os seus colaboradores. Ele argumentou que não se deve esperar empenho de alguém que não vê benefício para sua família, sua pátria e a humanidade, ao mesmo tempo que o seu trabalho enriquece a família dos outros. Tendo em vista essa descoberta ele explicitou, após muita reflexão, os princípios fundamentais que herdara de sua educação e que aplicara, intuitivamente, no trato com os seus colaboradores. Alertou que seus princípios foram, primeiramente, praticados e, só depois, registrados em documentos.
Os princípios adotados por Matsushita foram:
1. Serviço ao Público;
2. Justiça e Honestidade;
3. Trabalho em Equipe para uma Causa Comum;
4. Incansável Esforço de Melhoria;
5. Cortesia e Humildade;
6. Harmonia com as Leis Naturais;
7. Gratidão pelas Bençãos.
Ressalte-se que se tornou moda expressar a filosofia das organizações humanas destacando-se sua visão de futuro, sua missão e seus valores. Entretanto, raramente se tomam os cuidados tomados por Matsushita, que expressou aquilo que, segundo ele próprio, constituía a sua prática, e não a simples colocação no papel de ideais pomposos. A questão dos valores, portanto, torna-se central para a compreensão do homem em sociedade.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A observação do comportamento humano no dia-a-dia, as lições da História, os insights dos grandes escritores, bem como a leitura de textos especializados evidenciam que o ser humano tem, em potencial, a virtude e o vício dentro de si. A prova de um desenvolvimento humano bem-sucedido está na capacidade de se fazer prevalecer a virtude sobre o vício, o que exige a construção de ambientes sociais propícios, ainda que não se possa garantir resultados sempre positivos no desenvolvimento de pessoas sadias a partir de ambientes sadios.
As qualidades humanas, inatas ou adquiridas, compõem um espectro de ampla variação. Embora a satisfação de necessidades básicas se imponham como condição da existência humana, em muitos casos predominam desejos que, se satisfeitos sem controle, constituem riscos para a sociedade como um todo.
A civilização, que representa o rompimento com a obediência cega aos impulsos naturais, só é possível mediante a educação que leve ao autodomínio, para que cada membro da coletividade faça distinções claras entre necessidades e desejos, nos planos individual e social. O posicionamento pessoal que liberta, a longo prazo, só pode ser baseado em conhecimento vivido, intelectual e experimentalmente, pelo indivíduo no contexto da sociedade.
As diferentes teorias sobre a natureza humana ainda não deram conta de solucionar o problema do desenvolvimento humano sadio; entretanto, os sintomas de saúde mental deficiente da civilização tornam-se gritantes, exigindo ações baseadas em solidariedade e conhecimento. Não há, portanto, que esperar a emergência de teorias corretas para agir. É preciso mobilizar o potencial humano para, a partir das condições imperfeitas do presente, construir a sociedade do futuro, com base no diálogo permanente. Para isso é preciso promover o desenvolvimento humano levando-se em consideração que há um tênue limite entre as suas necessidades e os seus desejos. Tendo em vista a sua complexidade, melhor seria considerar o homem como um ser bio-psico-socio-espiritual.
Concluindo esta reflexão, sob a perspectiva de um cristiansimo crítico e prático, e não importando se a visão cristã correta é dicotômica - aquela que diz que o homem tem apenas corpo e alma -, ou tricotômica - aquela que diz que o homem tem corpo, alma espirito -, é preciso reconhecer que ele é, antes de tudo, criado à imagem e semelhança de Deus. O homem caiu de sua grandeza, e só pode ser reconciliado com Deus por meio de Jesus Cristo como mediador. Ele precisa ser educado e treinado para adquirir as qualidades de Cristo, porém ressaltando que nem todos, uma vez submetidos a tal educação, responderão positivamente a ela, uma vez que nem todos foram eleitos para serem salvos por Jesus Cristo.
Assim, a educação secular saudável é compatível, em seus fundamentos universais, com uma educação cristã, e deve ser oferecida a todos. Mas, para os cristãos, a educação cristã precisa sobrepor-se à educação secular. E isso só pode ser feito por instituições e igrejas cristãs, sejam elas católicas romanas, reformadas, ou independentes. Uma proposta de um Projeto Pedagógico cristão básico será feito na próxima reflexão.
4. FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA ESTA REFLEXÃO
SCHWARZ, Fernando. A Tradição e as Vias do Conhecimento Ontem e Hoje. Nova Acrópole, 1993.
WILSON, Edward 0. On Human Nature. Harvard University Press, 1994.
MATURANA R. , Humberto & VARELA G. , Francisco. A Árvore do Conhecimento. Editorial Psi.
VÁZQUEZ, A Sanches. Ética. Civilização Brasileira, 1996.
ENGELS, Friedrich. Socialism: Utopian and Scientific. In: Mars & Engels: Basic Writings on Politics and Philosophy. Lewis S. Feuer (Editor). Ancor Books, 1989.
RATNER, Carl. A Sociologia Sócio-Histórica de Vygostky.
VAN DEN BERG, J. H. Psicologia Profunda. Mestre Jou, 1980.
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. In: Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. Imago.
FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. In: Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. Imago.
FOULQUIÉ, P. A Psicologia Contemporânea. Nacional, 1955.
FROMM, Erich. Meu Encontro com Marx e Freud. Guanabara, 1986.
FROMM, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. Zahar, 1961.
FADIMAN, James & FRAGER, Robert. Teorias da Personalidade. Harper & How do Brasil, 1979.
CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. A Psicologia da Felicidade. Saraiva, 1992.
SAINT-ARNAUD, Ives. A Pessoa Humana. Edições Loyola, 1984.
SKINNER, Burrhus Frederic. O Mito da Liberdade. Summus, 1983.
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. Ediouro.
RESUMO
A presente reflexão refere-se ao conhecimento do homem e sua natureza como condição prévia para o estabelecimento de um programa de educação e treinamento. Parto de uma visão geral, passível de aplicação pela educação secular, mas termino a reflexão ressaltando a necessidade de que a educação secular seja complementada por uma educação genuinamente cristã para aqueles que se consideram seguidores do Evangelho de Jesus Cristo. Apresento ideias que, eventualmente, poderão ser peneiradas para extrair uma ou outra de valor, como acontece quando se faz um "brainwriting".
1 INTRODUÇÃO
O homem não nasce pronto. Ele nasce com um campo potencial de possibilidades que podem ou não ser realizadas de acordo com as condições de sua existência. Sua formação como homem, de acordo com a visão do seu grupo de referência, necessita, entre outras coisas, de educação e treinamento.
No caso do cristianismo, essa formação é dada pela igreja - instituição cristã - a que o indivíduo se associa, involutaria ou voluntariamente. Uma adesão involuntária ocorre por nascimento, quando os pais encaminham os filhos segundo sua tradição. Eventualmente o caminho inicialmente seguido é mudado por opção consciente, ou por invisível ação do Espírito.
Este texto situa-se como uma extensão natural de três textos anteriores que escrevi para autoesclarecimento: 1) Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental; 2) Deus, a Bíblia e Seus Intérpretes e 3) Os Sistemas de Doutrinas Cristãos e Suas Verdades. Além desses três textos mais estruturados, fiz algumas reflexões avulsas sobre temas que julguei relevantes.
Tenho a impressão de que o Evangelho simples foi tornado complexo até o limite de sua quase perda de credibilidade. Defendo a volta às raízes, porém sob uma forma de pensar que torne o Evangelho significativo para a mentalidade científica reinante, ou que deveria reinar, nessa era do conhecimento. Para isso, reflitamos sobre o homem e sua natureza, pois é preciso conhecer o homem como sujeito a ser formado e, ao mesmo tempo, como o objeto da educação.
2. O HOMEM E SUA NATUREZA
2.1 - O Problema Geral
A experiência cotidiana permite-nos observar, no ser humano, um conjunto de características cuja intensidade varia de indivíduo para indivíduo. Entre essas características poderíamos citar, num extremo, aquelas que levam ao aperfeiçoamento do caráter; num outro extremo, poderíamos listar várias características que são típicas do comportamento destrutivo. Qualidades antagônicas podem manifestar-se, ocasionalmente, numa mesma pessoa, o que levou certo sábio a dizer que “tudo que é humano não me é estranho”.
No dia-a-dia, muitas pessoas sacrificam-se na fogueira da vaidade em busca de dinheiro, fama e poder, enquanto outras, como verdadeiros santos, sacrificam-se pelo próximo. Guerras são travadas em nome de Deus, da libertação de classes sociais, e em nome da supremacia de raças, com o sacrifício de milhões de vidas. Por outro lado, a inabilidade para o convívio diário com o outro cria ambientes tensos que geram sofrimentos desnecessários durante o encontro humano em tempos de paz. Esse quadro não é mudado automaticamente pela educação formal, uma vez que entre as pessoas mais agressivas e egoístas existem muitos doutores, enquanto a sabedoria pode ser encontrada entre pessoas analfabetas.
Diante desse quadro, o homem reflexivo é atormentado por perguntas que têm permanecido sem respostas satisfatórias ao longo dos séculos. O que é o ser humano, afinal? O que lhe é inerente ao nascer e o que lhe é transmissível pela educação? A seguir serão apresentadas, de forma sintética, algumas entre as mais influentes visões sobre a natureza humana.
2.2 - O Homem Segundo a Tradição
O antropólogo Fernando Schwarz , chefe de Cátedra na Escola de Antropologia de Paris, fez extensas revisões da literatura a respeito do fenômeno humano no campo do Sagrado. Suas pesquisas evidenciaram que, da antiga China à Grécia, da Sibéria ao mundo cristão, dos Maias pré-colombianos ao Egito dos faraós, o denominador comum de todas as Tradições é uma constituição esotérica do homem, fundada numa estrutura ternária do Universo.
A criação estaria dividida em três esferas que se interpenetram: o mundo material simbolizado pela Terra, o mundo espiritual simbolizado pelo Céu e o mundo intermediário simbolizado pela atmosfera, reunindo os dois precedentes, no qual vive o homem. Segundo essa visão o homem seria um ‘microcosmos’ ou ‘pequeno universo’, possuindo em si a mesma estrutura organizada do Universo.
Platão, assumindo essa visão, assim descreveu, no Timeu, a criação da alma humana: “o demiurgo formou primeiro a alma imortal (nous), isto é, a inteligência; após o que, os deuses subalternos, enquanto encerravam essa primeira alma num corpo físico (soma), formaram a alma mortal (psyché), composta da coragem e do desejo. Assim, em nome de sua união com o corpo, a alma se torna sujeita à morte; somente é imortal a alma inteligente, que é a alma na integridade de sua natureza divina”.
A essas três partes do homem corresponderiam quatro virtudes: sabedoria, coragem, temperança e justiça, que são as mesmas no indivíduo e no Estado. A sabedoria é a virtude da alma inteligente (nous), enquanto possui o conhecimento que lhe permite exercer o comando; a coragem é a virtude da alma intermediária (psyché), enquanto obedece às ordens da inteligência. A psyché deve ter uma segunda virtude: a temperança, que lhe permite dominar sua parte concupiscente. Já a justiça, tanto no indivíduo como no Estado, manifesta-se quando as diversas partes estão em acordo entre si, cada uma executando sua função própria, sendo esta o equivalente à saúde para o corpo (soma).
A partir da estruturação anterior, Platão imaginava que a educação, visando a um estado de harmonia e felicidade, deveria incluir a ginástica, a música e a filosofia, em relação, respectivamente, com os mundos físico, psicológico e espiritual. Platão tinha um enfoque teocentrista, ao contrário do enfoque antropocentrista do seu discípulo Aristóteles. Sua visão teocentrista admitia, porém, que o “o homem é um deus, mas disto já se esqueceu”.
A partir da aceitação de uma estrutura ternária do Universo e do homem, certas Escolas de Sabedoria do Oriente e do Ocidente desenvolveram vias de ação mais detalhadas a fim de compreender o fenômeno humano; assim, pode-se encontrar a estrutura ternária desdobrada em 5, 7 ou 9 elementos.
A Tradição judia reconhecia a estrutura ternária, com a alma vivente sendo resultante da união do corpo com a inspiração do Espírito. O Maia, como o Budista, reconhecia cinco elementos constitutivos do homem. A Índia e o Egito, sociedades tradicionais por excelência, referiam-se a uma chave setenária. A Grécia de Platão concebia uma estrutura ternária, reflexo direto da estrutura do Universo: soma ou parte física, psyché ou parte psicológica ligada à alma (psyché = alma) e nous, a parte espiritual do homem. O cristianismo retomou a visão ternária usando a nomenclatura espírito, alma e corpo, que São João inscreveu no seu Evangelho na forma de verbum (mundo espiritual), lux (luz, estado físico) e vita (mundo corporal).
Na visão cristã, o homem é um ser criado à imagem e semelhança de Deus, tendo usado o seu livre arbítrio para corromper-se e afastar-se do seu estado de perfeição. Sua redenção poderia ser conseguida unicamente pela fé, mediante a graça salvadora do filho de Deus seu criador. A ética cristã valoriza a pobreza voluntária e o desapego à riqueza, que não é incompatível com a riqueza material lícita, ou seja, aquela que não se apodera do homem e nem o faça esquecer a sua realidade de membro de uma comunidade fraterna, submetida à lei do amor.
Na visão budista, o homem seria naturalmente imperfeito, porém, perfectível a partir do esforço para compreender e viver segundo as quatro nobres verdades: i) a insatisfação faz parte da realidade humana; ii) os anseios e os desejos são a fonte da insatisfação; iii) a extinção do desejo leva à extinção do sofrimento e iv) somente o caminho intermediário, ou moderação, pode eliminar os desejos e a insatisfação. Na perspectiva budista, enquanto não atingir a perfeição, o ser humano participaria de um ciclo de encarnação/desencarnação, para redimir-se de suas faltas passadas. A solução final estaria na busca do aperfeiçoamento contínuo da personalidade e de tudo que esteja ao alcance da ação humana.
Em oposição à visão da Tradição, geralmente criacionista, os evolucionistas vêm no ser humano apenas um dos produtos da natureza. Sua evolução teria acontecido nos planos biológico e cultural, com o primeiro plano tendo realizado praticamente todo o seu potencial. Na atualidade, a evolução humana dar-se-ia principalmente no plano cultural, com uma grande expectativa quanto à possibilidade de recriação humana pela manipulação genética. Maturana e Varela, abordando o homem a partir de uma visão sistêmica da biologia, enfatizam que a construção do ser humano em sociedade dá-se pelo compartilhamento de linguagem e emoção, ressaltando a importância do amor como elemento fundamental para se estabelecerem comunidades autopoiéticas, isto é, que se autoconstróem.
2.3 - Abordagem Marxista versus Freudiana
Vázquez afirma que: “Para Marx, o homem real é uma unidade indissolúvel, um ser espiritual e sensível, natural e propriamente humano, teórico e prático, objetivo e subjetivo. O homem é, antes de tudo, praxis: isto é, define-se como um ser produtor, transformador, criador; mediante o seu trabalho, transforma a natureza externa, nela se plasma e, ao mesmo tempo, cria um mundo à sua medida, isto é, à medida de sua natureza humana. (...). Ele seria, ainda, um ser social e histórico.”
Como ser social e histórico, o homem não teria uma natureza intrínseca, boa ou má, mas seria um produto do sistema social, embora esteja ao seu alcance reconstruir esse sistema. A propriedade privada dos meios de produção seria o principal empecilho à realização da essência humana, levando à escravização de toda a classe trabalhadora, ainda que sob aparência de liberdade. Marx e Engels concluíram que a história segue uma lei inexorável em direção a uma sociedade verdadeiramente humana, sem explorados e exploradores, que atingiria o seu clímax no comunismo. Nesse sistema, cujo advento poderia ser acelerado pelo socialismo científico – tese que não se confirmou nos experimentos até então realizados -, o homem superaria o reino da necessidade e manifestaria sua verdadeira essência de solidariedade e liberdade criadora.
A psicologia sócio-histórica, criada por Vygostky, assim expressa a sua visão do desenvolvimento humano: “a cultura e a tecnologia fortalecem teleologica e causalmente a consciência. Assim sendo, a consciência incorpora o caráter de suas mediações culturais e tecnológicas formativas, e sua forma, conteúdo e nível de desenvolvimento refletem as mediações culturais e tecnológicas. Essa consciência social medeia o impacto dos estímulos. As emoções, as sensações, as necessidades, a percepção e a recordação são partes integrantes da consciência social e estão impregnados de seu caráter social consciente. Finalmente, os indivíduos atuam sobre o mundo do estímulo pela intermediação da tecnologia e das instituições sociais.” Na opinião do biólogo Schneirla , adepto da psicologia sócio-histórica “é válido falar de uma ‘natureza do verme’, de uma ‘natureza da formiga’ ou, até mesmo, de uma ‘natureza do pássaro’, mas não de uma ‘natureza humana’, porque o homem pode ter toda e qualquer natureza que permitam as condições de sua criação e de sua situação social”.
Contrapondo-se à visão marxista, embora sem a intenção de combate político, Freud, criador da psicanálise, interpretou o homem a partir do seu aparelho psíquico, tentando esclarecer sua natureza fundamental, herdada e adquirida. Ele alertou que o seu modelo era imperfeito, apesar de útil, devendo ser modificado quando se conhecesse o suficiente sobre biologia. Alertou, ainda, para o fato de sua análise referir-se ao indivíduo na sociedade, e não como ser existente por si mesmo. Sua psicologia seria, portanto, também uma sociologia. Seu mapa da alma destaca três reinos: superego, ego e id, englobando cinco campos.
O superego eqüivale ao educador introjetado. Identifica-se com a sociedade normativa. O ego consciente está a serviço da percepção e da ação, em relação direta com o mundo externo. O pré-consciente é a outra parte do ego, contendo as informações inconscientes não reprimidas, e o campo neutral-vital, representando as necessidades vitais fisiologicamente determinadas. Estas, em última análise, representariam o principal impulso para a ação, no homem e nos animais.
Para Freud, os interesses individuais estão, quase sempre, em colisão com os interesses da civilização. Desta forma, toda evolução da civilização implicaria a imposição de restrições a que o indivíduo obtenha a plenitude do prazer instintual egoísta. Essa repressão, por outro lado, levaria o indivíduo a um estado de neurose que, no limite, se transformaria em doença permanente. As formas de educar para a civilização decorreriam da combinação entre: coerção, liderança pelo exemplo, trabalho, arte, esportes e conhecimento. Embora ateu, ele ainda destacou o grande papel da religião para a civilização.
Tendo em vista as conclusões a que chegou sobre o fenômeno humano, Freud manifestou total descrença no futuro do marxismo, atribuindo-lhe o status de uma “insustentável ilusão”, por basear-se, segundo ele, numa teoria errônea sobre a natureza humana. Para ele, os impulsos biológicos contraditórios que movem o homem não seriam eliminados junto com a extinção da propriedade privada, embora a eliminação da desigualdade econômica pudesse suprimir uma das principais causas de injustiça. Por outro lado, os marxistas caracterizaram a psicanálise como “psicologia do homem ocioso”, pois ela teria esquecido que os homens se definem pelo seu trabalho, por sua relação com o mundo objetivo .
Embora Marx e Freud pareçam irreconciliáveis, com o primeiro justificando o socialismo e o segundo sendo evocado para justificar o capitalismo como adequado à natureza humana, Fromm procurou demonstrar que o terreno comum entre os dois foi o esforço para romper as cadeias da ilusão e dar ao homem uma visão da realidade, usando para isso três elementos principais: a dúvida, o poder da verdade e o humanismo. Fromm ilustra a semelhança entre o núcleo central das idéias de Marx e Freud por meio de algumas citações dos mesmos.
De Marx ele destaca: “As exigências de abandonar as ilusões sobre sua condição é a exigência de abandonar a uma condição que necessita de ilusões.” “A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva.”
Quanto a Freud, Fromm destacou: “Os homens não podem continuar sendo sempre crianças; devem, por fim, enfrentar a vida hostil. A isso podemos chamar de educação para a realidade.” “Não, nossa ciência não é uma ilusão. Mas seria ilusão, isso sim, supor que possamos encontrar noutra parte aquilo que a ciência não nos pode dar.” “Onde houver Id, haverá Ego.”
Fromm defendeu que, para compreender o homem, é preciso partir de suas necessidades, conforme resultam das condições de sua existência. Ele afirmou, com base em ampla experiência clínica e estudos, que o homem se defronta com algumas opções de cujo equilíbrio depende a sua saúde mental: a) relacionar-se com o outro ou cultivar o narcisismo; b) evoluir pela liberação de suas tendências criadoras ou involuir pela vazão de suas tendências destrutivas; c) assumir a fraternidade ou praticar o incesto; d) optar pela individualidade ou pela conformidade gregária; e) submeter-se à razão ou agir de forma irracional. A saúde mental, em suma, dependeria das condições de existência, e o conceito seria o mesmo para os homens de todas as épocas: “A saúde mental se caracteriza pela capacidade de amar e criar, pela libertação dos vínculos incestuosos com o clã e o solo, por uma sensação de identidade baseada no sentimento de si mesmo como o sujeito e o agente das capacidades próprias, pela captação da realidade interior e exterior, isto é, pelo desenvolvimento da objetividade e da razão.”
2.4 - A Síntese de Maslow
Entre as principais teorias da personalidade, selecionadas por Fadiman e Frager , será destacada a tentativa de síntese realizada pelo psicólogo humanista Abraham Maslow, por sua grande influência no ocidente e no Japão do pós-Guerra. Sua postura otimista pode ser resumida em suas próprias palavras: “Para simplificar a questão, é como se Freud nos tivesse fornecido a metade doente da Psicologia e nós devêssemos preencher a outra metade sadia.”
Maslow pesquisou alguns modelos de seres humanos sadios que poderiam ser tomados como exemplos do que, potencialmente, os homens poderiam se tornar. As pessoas que escolheu para estudar estavam relativamente livres de neuroses ou de problemas pessoais maiores, usavam da melhor maneira possível os seus talentos, capacidades e outras forças. Ele as chamou de “autoatualizadoras”, significando que elas estavam em permanente processo de crescimento, fazendo realizar os seus potenciais.
Ele enumerou as seguintes características dessas pessoas:
• Percepção mais eficiente da realidade e relações mais satisfatórias com ela;
• Aceitação (de si, dos outros e da natureza);
• Espontaneidade, simplicidade e naturalidade;
• Concentração no problema, em oposição ao estar concentrado no ego;
• Desprendimento e necessidade de privacidade;
• Autonomia em relação à cultura e ao meio ambiente;
• Pureza permanente de apreciação;
• Experiências místicas e culminantes;
• Sentimento de parentesco com outros;
• Relações pessoais mais profundas e intensas;
• Caráter democrático;
• Discriminação entre os meio e os fins, entre o bem e o mal;
• Senso de humor filosófico e não hostil;
• Criatividade autoatualizadora;
• Resistência à aculturação: a transcendência de qualquer cultura específica.
Não se pode perder de vista que o próprio Maslow concluiu que não existem mais do que 2% de pessoas autoatualizadoras. Quando tentou aplicar suas idéias à administração da fábrica de um parente, descobriu a diferença entre teoria e prática, tendo concluído que o desenvolvimento de altas expectativas quanto às pessoas chega a ser cruel para com aquelas que não podem corresponder à altura. Em verdade, a única maneira racional e justa de lidar com as pessoas seria permitir que os seus potenciais sejam atualizados de forma a fluir, sem ansiedade ou tédio, de acordo com as provas científicas mais recentes obtidas por Csikszentmihalyi .
Uma das mais citadas contribuições de Maslow é a sua hierarquia das necessidades humanas. Para ele a neurose e o desajustamento psicológico são “doenças de carência’, isto é, causadas pela privação de necessidades básicas. As necessidades por ele enumeradas manifestam-se simultaneamente nas pessoas, porém, com intensidades diferentes, exigindo satisfação de acordo com a demanda. Sua hierarquia de necessidades é a seguinte:
• Necessidades fisiológicas (fome, sono, etc.);
• Necessidades de segurança (estabilidade, ordem);
• Necessidades sociais (família, amizade);
• Necessidades de estima (auto-respeito, aprovação);
• Necessidades de autoatualização (desenvolvimento de capacidades).
Maslow chamou a atenção para o fato de que quando um organismo, animal ou humano, não está com fome, dor ou medo, novas motivações emergem, tais como a curiosidade e a alegria. Sob essas condições o organismo superaria a motivação de deficiência, orientada para fugir do sofrimento, e entraria num estado de motivação do ser.
Os seres humanos entram em atividade para satisfazer suas necessidades. Para obter a sua cooperação é preciso dar-lhes a esperança, alimentada por fatos e dados concretos, de que o esforço inteligente é a única forma de satisfazer tais necessidades, no presente e no futuro. As organizações mais avançadas, por exemplo, não se contentam em satisfazer as necessidades materiais e sociais dos seus colaboradores, acenando para a realização de uma missão nobre, de valor para a nação e para a humanidade. Veja-se, por exemplo, ainda que pareça falso, a declararão da missão da empresa HP: “Inovar para o bem da humanidade”. Veja-se, também, o ponto de vista do empresário Matsushita, mais adiante.
Pesquisando o que havia em comum sobre os motivos que levam os homens à ação entre vários autores da mesma linha de Maslow, a que deu o nome de psicologia perceptiva, Saint-Arnaud identificou três níveis de necessidades que geram os comportamentos humanos: as necessidades fundamentais, as necessidades estruturantes e as necessidades situacionais. A necessidade fundamental seria um elemento de atualização que manifesta uma exigência inata do organismo, exigência que não pode deixar de ser satisfeita sem graves conseqüências para o desenvolvimento do organismo. São elas: as necessidades físicas (ou biológicas), incluindo comer, dormir etc. e as necessidades psicológicas: amar e ser amado, produzir e compreender. A necessidade estruturante seria um aspecto da estrutura motivacional de natureza sócio-cultural, como os hábitos de vida que são desenvolvidos em função da tradição: três refeições, oito horas de trabalho, religião, ciência, leitura etc.. A necessidade situacional permite expressar as necessidades fundamental e estruturante num dado momento qualquer: estou com fome, estou com sono, vou rezar, quero conversar com Sílvia etc.. O desenvolvimento humano sadio ocorreria, assim, quando o ambiente fornecer os ingredientes de que o organismo necessita para desenvolver-se normalmente, tendo em vista a satisfação de suas necessidades.
À psicologia humanista, da qual Maslow foi o principal expoente, contrapôs-se a psicologia comportamentalista de Skinner . Enquanto os humanistas acreditavam numa motivação intrínseca, como o trabalho por amor ao trabalho, em ambiente sadio, Skinner tomou como hipótese forte o condicionamento operante, isto é, a reação a estímulos associados a recompensa ou punição. Enquanto a visão humanista parece mais nobre, sendo evocada sem receios, a visão de Skinner, embora nem sempre explicitada, e nem sempre julgada à altura da dignidade humana, incorporou-se ao dia-a-dia da educação e das organizações humanas em geral. Recompensar os bons resultados e, com alguma concessão, deixar de punir os maus resultados, tem sido a prática corrente no trato com as pessoas visando à sua capacitação e realização dos seus potenciais.
2.5 - O Ponto de Vista de um Empresário-Filósofo
Os empresários, como quaisquer outros seres humanos, não estão obrigados a agir somente por motivos egoístas, embora geralmente sejam acusados de fazê-lo. Platão, por exemplo, julgou que as pessoas ambiciosas tinham na indústria e no comércio a sua atividade natural. Smith , considerado um dos pais da economia, disse, de certos empresários, que eles constituem “uma classe de homens cujo interesse nunca é igual ao do público, que têm em geral o interesse de enganar e até oprimir o público, e que, por isso, em muitas ocasiões, têm efetivamente enganado e oprimido o público.”
Konosuke Matsushita, empresário-filósofo japonês, representou uma exceção explícita a esse julgamento depreciativo, tendo dedicado parte de sua vida à reflexão sobre a natureza humana. Após entrar em contato com a literatura sobre o tema, de caráter geralmente pessimista, ele concluiu que sua experiência colocava por terra todas as premissas negativas sobre o ser humano. Argumentou que o ser humano foi capaz, ao longo da história, de inventar coisas maravilhosas para melhorar a vida na Terra. Ponderou que o progresso da civilização só foi possível graças à cooperação e ao trabalho incansável de muitas pessoas que, em alguns casos, nem mesmo chegaram a usufruir dos benefícios do seu trabalho. Como poderiam essas pessoas ser classificadas como más?
A experiência de Matsushita foi notável, principalmente por ter demonstrado que homens simples, sem instrução, quando incentivados, desafiados e apoiados, podem realizar feitos surpreendentes. Ele conseguiu que muitos dos seus empregados, simples agricultores analfabetos, se tornassem inventores, espelhando-se no autodidata americano Thomas Edison.
Seu segredo, segundo ele próprio, foi criar uma missão nobre e compartilhá-la com os seus colaboradores. Ele argumentou que não se deve esperar empenho de alguém que não vê benefício para sua família, sua pátria e a humanidade, ao mesmo tempo que o seu trabalho enriquece a família dos outros. Tendo em vista essa descoberta ele explicitou, após muita reflexão, os princípios fundamentais que herdara de sua educação e que aplicara, intuitivamente, no trato com os seus colaboradores. Alertou que seus princípios foram, primeiramente, praticados e, só depois, registrados em documentos.
Os princípios adotados por Matsushita foram:
1. Serviço ao Público;
2. Justiça e Honestidade;
3. Trabalho em Equipe para uma Causa Comum;
4. Incansável Esforço de Melhoria;
5. Cortesia e Humildade;
6. Harmonia com as Leis Naturais;
7. Gratidão pelas Bençãos.
Ressalte-se que se tornou moda expressar a filosofia das organizações humanas destacando-se sua visão de futuro, sua missão e seus valores. Entretanto, raramente se tomam os cuidados tomados por Matsushita, que expressou aquilo que, segundo ele próprio, constituía a sua prática, e não a simples colocação no papel de ideais pomposos. A questão dos valores, portanto, torna-se central para a compreensão do homem em sociedade.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A observação do comportamento humano no dia-a-dia, as lições da História, os insights dos grandes escritores, bem como a leitura de textos especializados evidenciam que o ser humano tem, em potencial, a virtude e o vício dentro de si. A prova de um desenvolvimento humano bem-sucedido está na capacidade de se fazer prevalecer a virtude sobre o vício, o que exige a construção de ambientes sociais propícios, ainda que não se possa garantir resultados sempre positivos no desenvolvimento de pessoas sadias a partir de ambientes sadios.
As qualidades humanas, inatas ou adquiridas, compõem um espectro de ampla variação. Embora a satisfação de necessidades básicas se imponham como condição da existência humana, em muitos casos predominam desejos que, se satisfeitos sem controle, constituem riscos para a sociedade como um todo.
A civilização, que representa o rompimento com a obediência cega aos impulsos naturais, só é possível mediante a educação que leve ao autodomínio, para que cada membro da coletividade faça distinções claras entre necessidades e desejos, nos planos individual e social. O posicionamento pessoal que liberta, a longo prazo, só pode ser baseado em conhecimento vivido, intelectual e experimentalmente, pelo indivíduo no contexto da sociedade.
As diferentes teorias sobre a natureza humana ainda não deram conta de solucionar o problema do desenvolvimento humano sadio; entretanto, os sintomas de saúde mental deficiente da civilização tornam-se gritantes, exigindo ações baseadas em solidariedade e conhecimento. Não há, portanto, que esperar a emergência de teorias corretas para agir. É preciso mobilizar o potencial humano para, a partir das condições imperfeitas do presente, construir a sociedade do futuro, com base no diálogo permanente. Para isso é preciso promover o desenvolvimento humano levando-se em consideração que há um tênue limite entre as suas necessidades e os seus desejos. Tendo em vista a sua complexidade, melhor seria considerar o homem como um ser bio-psico-socio-espiritual.
Concluindo esta reflexão, sob a perspectiva de um cristiansimo crítico e prático, e não importando se a visão cristã correta é dicotômica - aquela que diz que o homem tem apenas corpo e alma -, ou tricotômica - aquela que diz que o homem tem corpo, alma espirito -, é preciso reconhecer que ele é, antes de tudo, criado à imagem e semelhança de Deus. O homem caiu de sua grandeza, e só pode ser reconciliado com Deus por meio de Jesus Cristo como mediador. Ele precisa ser educado e treinado para adquirir as qualidades de Cristo, porém ressaltando que nem todos, uma vez submetidos a tal educação, responderão positivamente a ela, uma vez que nem todos foram eleitos para serem salvos por Jesus Cristo.
Assim, a educação secular saudável é compatível, em seus fundamentos universais, com uma educação cristã, e deve ser oferecida a todos. Mas, para os cristãos, a educação cristã precisa sobrepor-se à educação secular. E isso só pode ser feito por instituições e igrejas cristãs, sejam elas católicas romanas, reformadas, ou independentes. Uma proposta de um Projeto Pedagógico cristão básico será feito na próxima reflexão.
4. FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA ESTA REFLEXÃO
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VAN DEN BERG, J. H. Psicologia Profunda. Mestre Jou, 1980.
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. In: Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. Imago.
FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. In: Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Freud. Imago.
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FADIMAN, James & FRAGER, Robert. Teorias da Personalidade. Harper & How do Brasil, 1979.
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SAINT-ARNAUD, Ives. A Pessoa Humana. Edições Loyola, 1984.
SKINNER, Burrhus Frederic. O Mito da Liberdade. Summus, 1983.
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. Ediouro.
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